terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Capítulo 5


Eu sentei no degrau da calçada e tirei o pé do chão. As lágrimas teimavam em deslizar pelo meu rosto, dificultando a minha visão.Resultado de imagem para sentado na calçada
Percebi que conforme os carros iam passando, as pessoas iam me olhando com ar de curiosidade. Como será que eu estava fisicamente naquele momento? Acho que eu ia evitar o espelho por um bom tempo dali em diante.
Quando a dor do meu pé diminuiu um pouco, eu tentei ficar de pé e com muita dificuldade, comecei a caminhar.
Cada passo que eu dava, sentia vontade de gritar de tanta dor que estava sentindo. Se já não bastasse toda a humilhação que eu havia passado, se já não bastasse a surra que eu tinha levado, provavelmente estava com o tornozelo quebrado. Ou pelo menos torcido.
Quando eu cheguei na esquina da rua da minha casa, não consegui me equilibrar e mais uma vez caí, daquela vez ralando o braço esquerdo em uma parede de concreto.

- Ai... – choraminguei. – Me ajuda, Deus, me ajuda, por favor...

Depois de alguns segundos me recompus e fiquei de pé novamente. Respirei fundo e continuei andando; precisava chegar aonde eu queria. Precisava de ajuda...
Depois de atravessar a rua, a dor ficou tão insuportável, mas tão insuportável, que eu não consegui mais andar e fui obrigado a sentar na calçada. Como se não bastasse a dor do pé, meu estômago também doía por causa dos chutes que eu havia levado. Fiquei com medo de estar com algum problema mais sério...
Não sei quanto tempo fiquei sentado na sarjeta. Não sei se haviam passado minutos ou horas. Eu só conseguia pensar em como eu tinha sido idiota em não ter trancado a porcaria da porta do meu quarto... Como eu pude ser tão imbecil?
Como era domingo e tarde da noite, quase ninguém estava passando na rua e os poucos que passavam, não me davam a menor atenção. Pensei em pedir ajuda, mas fiquei com vergonha de contar o que havia acontecido. Só o que me restava era chorar e rezar. Rezar para que a dor diminuísse e eu conseguisse chegar onde queria ir.
E eu acho que as minhas preces foram ouvidas. Depois de um tempo, fui surpreendido por quem eu menos esperava e por quem eu mais precisava: meu amigo, o Víctor.

- Caio? – ele arregalou os olhos. Víctor não estava sozinho. – O que aconteceu?

Eu não respondi, só chorei e isso foi suficiente para ele entender o que tinha acontecido.
Resultado de imagem para ajudando a levantar
- Me ajuda a levantá-lo, Renan.
- AI – gritei de dor quando alguém pegou no meu braço.
- Desculpa – disse o menino que eu não conhecia.
- Consegue andar? – indagou Víctor.
- Não – respondi. – Acho que quebrei o pé.
- O que aconteceu? Você foi atropelado? – perguntou o desconhecido.
- Melhor não fazer perguntas agora, Renan. A gente precisa levá-lo a um hospital.
- Não... hospital não. por favor...
- Mas, Caio, você precisa ver se não quebrou alguma coisa...
- Não... pelo amor de Deus, hospital não...
- Tá, tudo bem. Eu vou te levar pra minha casa!!!
- Pra sua casa? Por que não leva ele pra casa dele? – Renan questionou.
- Porque eu sei o que estou fazendo. Não faça perguntas e me ajuda a carregá-lo aqui...
Aos poucos eles foram me ajudando a andar e depois de alguns minutos, nós chegamos na casa do Víctor, que era onde eu queria chegar desde o começo.

- Virgem Santíssima – a mãe dele se espantou. – O que aconteceu com esse menino?
- Melhor não se preocupar com isso agora, vó – Víctor me ajudou. – Tudo o que ele não precisa é de questionamentos nesse momento.
- Minha nossa, tem que levar esse menino pro hospital!!!
- Não – choraminguei. – Não...
- Fica calmo, Caio. Fica tranquilo. Ninguém vai fazer o que você não quer...

Meu coração bateu aliviado.

- Mas Víctor, ele está péssimo – disse a avó do meu amigo.
- Eu sei, vó, mas é melhor fazer o que ele está falando... Me ajudem a levá-lo pro meu quarto.
Eu gemi de dor quando voltei a andar, mas me senti aliviado quando sentei na cama do garoto. Ali eu estava me sentindo protegido, como se ninguém pudesse me fazer mal.
- O que houve com você, meu querido? – a avó do Víctor insistiu naquele assunto.
Não tive coragem de responder e desviei os olhos da face da mulher.
- Vó, me deixa a sós com ele? Precisamos de privacidade.
Privacidade? O que ele ia fazer comigo?
- Vou preparar alguma coisa pra ele comer. Ele precisa se recuperar - a mulher saiu andando.
- Isso. Faça isso.
Depois que ela saiu, ele fechou a porta e me olhou com a fisionomia séria.
- Fala a verdade. O que houve?
- Meu pai... – sussurrei depois de uns segundos. Não conseguia olhar pra ele.
- Você precisa ir à delegacia abrir um Boletim de Ocorrência.
- NÃO! – gritei. De jeito nenhum eu ia me expor daquele jeito, muito menos denunciar o meu pai. Talvez fosse pior se eu fizesse aquilo.
- Isso não pode ficar assim, Caio – ele cruzou os braços. – Isso é desumano!!!
Abaixei a cabeça e chorei baixinho. Que humilhação eu estava passando, meu Deus...
- Não chora mais – ele se aproximou e ajoelhou na minha frente. – Não chora mais, por favor...
Funguei e respirei fundo. Meu corpo inteiro estava doendo.
- Deixa eu limpar esse sangue...
Se ele estava com o algodão e o remédio o tempo todo eu não havia percebido. Quando o líquido tocou meu nariz, senti a pele arder. Tudo deplorável. Estava me sentindo o pior de todos os seres humanos.
- AI que dor...
- Caio, por favor, vamos ao médico? Você precisa ver esse braço, ver esse pé...
- Não... Não quero dar explicações, Víctor. Por favor, me entenda...
- Te entendo sim, gatinho, mas para de chorar, ta?
Não conseguia. Por mais que eu tentasse, as lágrimas insistiam em cair. Era incontrolável.
- Vamos trocar de roupa, essa está toda ensanguentada... – ele levantou e abriu a porta do guarda-roupa.
- Não precisa... – gemi baixinho.
- Precisa sim. Quer tomar um banho?
Talvez aquilo me ajudasse.
- Não quero incomodar...
- Incômodo algum. Eu te ajudo!
- Não – senti a dor do meu estômago ser trocada por gelo instantaneamente.
- Beleza, você toma sozinho. Se conseguir. Vem, levanta!!!
Coloquei o pé que estava bom no chão e ele me ajudou a saltitar até o banheiro.
- Isso tem que ser denunciado!
- Não... – choraminguei de novo.
- Ah, se fosse comigo!!!
Nós entramos e ele me ajudou a tirar a camiseta. Senti muita dor quando ergui o braço. Será que também estava quebrado?
- Vou trazer um sabonete, uma toalha e uma roupa pra você, espera aí...
Segurei na parede e respirei fundo. Meu estômago estava doendo de novo.
- O que foi? O que está sentindo? – ele se preocupou.
- Meu estômago tá doendo muito...
- Você vai ao médico, quer queira, quer não!!!
- Não, pelo amor de Deus, não...
- Se amanhã você estiver assim, você vai. Não quero nem saber.
Não falei nada.
- Vou te deixar sozinho pra você ficar mais à vontade. Se precisar de mim é só me chamar.
Assenti e desviei os olhos. Que vergonha eu estava sentindo...
Depois que ele saiu, tirei a cueca e fui pra debaixo do chuveiro. A água quente ajudou a tirar um peso enorme das minhas costas. Parece até que eu estava ficando mais leve.

Não demorei muito porque não estava me segurando em pé. Com muita dificuldade consegui me vestir e quando terminei, chamei meu amigo, que entrou prontamente no banheiro.
- Minha avó fez uma comidinha pra você. Isso vai te ajudar a recompor as energias...
- Não quero que se preocupem comigo.
- Não tem que ficar sem graça. Aqui vai ser a sua casa por um tempo.
- Fico muito agradecido...
- Não chora, Caio. Você tem que se acalmar.
- Você pensa que é fácil?
- Sei que não é, já passei por isso.
Senti gosto de sangue na boca, mas não comentei nada porque não queria ir ao médico.
- Aqui, querido. Coma tudo. Você precisa ficar forte.
- Obrigado, Dona...?
- Maria – ela respondeu.
- Obrigado, Dona Maria. Muito obrigado.
Eu pensava que aquela senhorinha simpática e boazinha era a mãe do Víctor e não a sua avó.
Eu comi bem devagar por causa das dores do meu corpo. A comida estava boa, mas eu não estava sentindo ânimo pra nada. Nem fome estava sentindo.
- Melhor você não mexer esse braço, nem esse pé.
O Víctor trocou a compressa de gelo que estava no meu tornozelo.
- Obrigado – funguei.
- Conta comigo sempre – ele respondeu.
- Nem sei como te agradecer...
- Não precisa agradecer. Quero que você fique bem.
Ficar bem? Não estava acreditando naquela possibilidade.
- Sua dor de estômago melhorou?
- Uhum – respondi com sinceridade.
- Tadinho. Você não merece isso...
Só precisei ouvir aquilo pra voltar a chorar compulsivamente, Por que o meu pai tinha feito aquilo comigo? Por que ele tinha que ser tão preconceituoso?
- Não chora – o adolescente se aproximou e secou as minhas lágrimas. – Você vai dar a volta por cima...
Dar a volta por cima... Por mais que eu pensasse naquilo, não conseguia imaginar como, ou se seria possível. Humilhado, espancado e expulso de casa. Estava sem roupas, sem dinheiro, nem meus documentos eu tinha mais...
- Não passo de um indigente – concluí depois de muito pensar.
- Não fale assim, você vai ver que tudo vai se resolver. Pra tudo tem jeito, Caio. Menos pra morte.
Morrer. Talvez aquela fosse uma boa solução.
- Quer dormir um pouco?
- Não sei se vou conseguir.
- Consegue sim... Vou apagar a luz pra você ficar mais confortável.
- Onde você vai ficar? – eu estava constrangido porque estava usando a cama dele.
- No quarto dos meus pais. Não se preocupe com isso. Descanse e se precisar de alguma coisa é só me chamar.
- Muito obrigado. Muito obrigado mesmo.
- Já disse que não tem que agradecer.
Ele desligou a luz e encostou a porta ao passar. Eu continuei chorando por um tempo, mas a dor foi ficando longe e aos poucos, muito aos poucos, acabei adormecendo.
Mesmo tendo um sono inquieto durante a noite, consegui descansar o corpo e acordei me sentindo melhor. Quando o Víctor abriu a porta do quarto, eu já estava acordado e com os olhos abertos.
- Bom dia – me cumprimentou.
- Bom dia – respondi.
- Se sente melhor?
- Um pouco.
- Quer que eu te leve ao médico?
- Não – respondi de imediato. – Não precisa, já me sinto melhor.
- Tem certeza?
- Tenho sim.
- E o tornozelo?
Eu mexi o meu pé. Senti dor, mas não tanto como no dia anterior.
- Dói um pouco, mas não tanto como ontem.
- O braço?
Esse sim estava doendo.
- Ai...
- Tá vendo porquê tem que ir ao médico? Talvez esteja quebrado!!!
Suspirei.
- Se não melhorar até amanhã eu vou, tá bom?
- Você disse isso ontem, mas vou respeitar sua decisão. Quer levantar? Ir ao banheiro? Tomar café?
- Se você não se importar eu quero ficar mais um pouco aqui. Tenho muita coisa pra pensar...
- Fique o quanto você desejar, a casa é sua. Eu vou pro colégio...
- Pelo amor de Deus, não comenta com ninguém, absolutamente ninguém que eu estou aqui na sua casa.
- Eu imaginei que você ia me pedir isso.
- Por favor!!! Se o Cauã perguntar alguma coisa, fala que você não sabe de nada.
- Tudo bem, você é que manda. Se precisar de alguma coisa, é só chamar a minha avó.
- Muito, mas muito obrigado mesmo!
- Disponha. Mais tarde eu te passo as aulas.
- Não vai adiantar muita coisa, meus materiais estão em casa... Quer dizer, na casa dos meus pais.
- Nâo fale assim, você vai voltar pra lá, você vai ver.
- Duvido!
- Pra Deus nada é impossível.
- Mas pro meu pai é. 

Ele me fitou com a fisionomia bem séria.
- Vou lá então.

- Boa aula.
- Descansa mais um pouco. Vai te fazer bem.
- Pode deixar.

Quando ele saiu eu suspirei e fechei os olhos. Voltar pra casa... Aquilo soava como uma missão impossível pra mim. Não ia colocar os pés lá tão cedo. Não com o meu pai por perto.
Mas o que eu ia fazer? Como seria a minha vida dali em diante? Não ia poder ficar dependendo da boa-vontade do Víctor pra sempre...
Foi pensando nisso que eu resolvi que ia procurar um emprego assim que melhorasse. Mas onde? Quem daria uma oportunidade pra um garoto de 16 anos, totalmente inexperiente?
Alguém ia ter que me ajudar. E eu estava disposto a ir até o fim do mundo pra poder mudar de vida. Ninguém ia me segurar e ninguém ia passar por cima de mim. Não mais. Já bastava a humilhação que eu tinha passado.

Depois de uma meia hora, a Dona Maria entrou no quarto bem devagar. Será que ela queria alguma coisa?
- Ah, está acordado, querido?
- Uhum...
- Você está melhor?
- Um pouco.
- Quer tomar café agora?
- Não, Dona Maria, muito obrigado. Não estou com fome.
- Mas tem que se alimentar pra ficar forte logo.
Eu sorri. Como ela era boazinha.
- Nâo, obrigado. Não estou mesmo com fome.
- Está bem. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.
- Obrigado.
- Ah, já ia me esquecendo: isso aqui é pra você. Acho que vai precisar, né?

Ela me entregou uma sacolinha com uma escova de dentes e alguns aparelhos de barbear. Meu rosto esquentou repentinamente.

- Nem sei como agradecer...
- Não tem que agradecer não. É um prazer poder ajudá-lo.
- Obrigado, muito obrigado mesmo. Um dia eu vou retribuir tudo, pode ter certeza.
- Não é nada. Descanse e fique à vontade.
- Obrigado, Dona Maria.
A avó do Víctor saiu e encostou a porta. Eu virei na cama e só naquele momento pude notar que não estava tão bem como imaginava. Bastou me mexer pra perceber que todo o meu corpo estava dolorido por causa da surra do dia anterior. Por sorte, o sono voltou rapidamente e eu consegui adormecer novamente, deixando todas as preocupações em segundo plano.
Quando Víctor chegou da escola, eu já tinha levantado, arrumado a cama e tomado banho.
- Sua avó me emprestou essa roupa. Espero que não tenha problema.
- Claro que não. E aí, como está o seu pé?
- Dói um pouco ainda. A mesma coisa de hoje de manhã.
- Acho que é bom você colocar mais um pouco de gelo.
- É vou fazer isso.
- A escola toda tá sabendo o que aconteceu com você.
Um iceberg ou o Pólo Norte inteiro desceu pra minha barriga. Senti a maior vontade de chorar.
- Não faz essa carinha... a culpa não é sua, é do idiota do seu irmão!
- Aposto que ele tá radiante, a casa é dele agora. Agora ele é filho único, do jeito que ele sempre quis.
- Lembre-se que aqui se faz, aqui se paga. O que é dele e da sua família está guardado.
Suspirei e segurei as lágrimas. Meu amigo me deu um abraço apertado e me consolou. Ele era a única pessoa que eu tinha naquele momento.
Depois de alguns dias, meu pé já não doía mais e meu braço já estava voltando ao normal. Só o que restava era hematomas no rosto e nas costas e o corte da minha boca. Eu já não sentia mais dor como antes.
- Você está cada dia melhor.
- Quero ficar recuperado logo, preciso passar na minha casa pra pegar as minhas coisas...
- Você não vai mesmo voltar pra escola?
- De jeito nenhum. Já vai entrar as férias mesmo.
- Mas você está perdendo provas importantes.
- Não me importo não. Quando os alunos entrarem de férias eu vou pedir transferência. Não posso ficar lá, é muito humilhante.
- Mas os boatos já passaram! Ninguém fala mais de você.
- Sim, sim, mas quando eu aparecer eles vão lembrar e não vão deixar barato.
- Você é que sabe, gatinho.
Contar com o Víctor estava sendo a minha única opção, mas eu ainda não estava enxergando uma luz no fim do túnel. E eu precisava enxergá-la.

A minha recuperação total aconteceu duas semanas depois da surra que recebi. Na segunda-feira, eu saí da casa do meu amigo pela primeira vez. Aproveitei que meu pai estava no trabalho e resolvi buscar as minhas coisas. Se elas ainda estivessem lá, é claro.

- Caio? – minha mãe se surpreendeu. – É você mesmo?
Quem ela pensava que era? O Papai Noel? Ou o Bento XVI?
- Sim. Eu quero as minhas coisas.
Ela me fitou com um olhar tristonho.
- Por que você fez isso, meu filho?
- Não vim falar sobre isso, vim buscar as minhas coisas.
Ela suspirou.
- Onde você está, meu filho?
- Não vou nem comentar, mãe.
- É na casa daquele seu amigo, não é?
- E se for? E se for na casa dele? O que tem de errado? Ele é muito melhor do que muita gente dessa casa, pode ter certeza disso.
- Seu pai não para de beber, todos os dias chega tarde e bêbado...
- É ele que quer assim, não é? Não posso fazer nada.
- A culpa é sua. Se você não fosse... isso que você é, nada disso teria acontecido.
- Pois é, mas eu sou. Eu sou e me orgulho disso. Cadê as minhas coisas? Jogaram fora?
- Como você pode ter orgulho disso, Caio? Você está doente, precisa procurar uma igreja!!!
Caí na gargalhada. Era a primeira vez que eu ria desde a minha expulsão.
- Você acha mesmo que isso é doença? Doentes são vocês, doentes da cabeça. Onde é que já se viu um pai espancar um filho como o seu marido fez? Isso é que é doença!!!
- Procura um padre, Caio. Procura um pastor, vai numa igreja... você quer ir na sessão de descarrego comigo? Eu te levo, lá eles vão fazer você ser normal, meu filho...
Só podia ser uma piada mesmo.
- Mãe, por favor, me entrega as minhas coisas? Eu não vou ficar discutindo com você aqui na calçada...
- O que você quer?
- Só o que é meu. Minhas roupas, meus tênis, meu material da escola, meu celular...
- Seu pai quebrou seu celular, filho.
- Ah, ele fez isso, é? Bom, não foi eu que pagou mesmo... se você puder me dar as minhas roupas, eu te agradeço muito.
- Seu pai pediu pra eu doar na igreja...
Doar numa igreja? Me admirei, porque cheguei a cogitar a possibilidade dele ter jogado tudo no lixo ou de ter queimado as minhas coisas.
- E você prefere doar ao me entregar, não é mesmo?
- Eu não disse isso.
- Seus olhos disseram por você, mãe. E eu que pensei que podia contar pelo menos com você, mas já vi que me enganei redondamente.
Ela começou a chorar.
- Uma mãe não desampara um filho, Caio. Espera aí, eu vou buscar...
- É, eu vou esperar, porque entrar eu não posso, né? É capaz que você jogue cloro no lugar em que eu pisar.
Ela soluçou e saiu andando, balançando a cabeça negativamente. Meu coração estava apertado e eu também queria chorar, mas não ia fazer aquilo na frente dela.
Depois de uns 15 minutos, minha mãe voltou com um saco de lixo nas mãos e a minha mochila no ombro.
- Eu posso saber como você está? – ela perguntou.
- Como você acha? Acha que eu posso ficar bem? Acha que está sendo fácil pra mim?
- Também não está sendo fácil pra nós, meu filho.
- Mas é pior pra mim, mãe. Sou eu que estou sem casa, sem roupas, sem dinheiro, sou eu que vai ter que começar a trabalhar, fui eu que apanhei...
Ela voltou a chorar.
- Seu choro me comove muito. Lágrimas de crocodilo!!! Me dá as minhas coisas, eu não tenho mais nada pra fazer aqui.
- Independente de qualquer coisa, eu te amo, filho...
- Ama? Ama mesmo? Tenho as minhas dúvidas. Se amasse, me aceitaria, o que não está acontecendo.
Ela me fitou com os olhos saudosos. Meu coração estava doendo. Eu queria um abraço da minha mãe...
- Bom, obrigado por dar as minhas roupas. Espero não ter causado problemas pra você.
- Seu pai não vai saber disso.
- Que assim seja. Adeus, mãe.
- Não fala assim, Caio. Parte o meu coração.
- O que você quer que eu fale? Estou sendo realista. Provavelmente não nos veremos nunca mais. Vocês não aceitam um filho gay mesmo...
Ela soluçou de tanto chorar.
As minhas lágrimas também escaparam.
- Me liga, meu filho. Me liga pra me dar notícias...
Meu orgulho estava muito ferido pra eu aceitar aquela proposta. Não falei nada, virei e comecei a andar.
- Caio... – ela me chamou.
- O que foi?
Com lágrimas nos olhos, minha mãe me fitou profundamente e disse:
- Pense em tudo o que eu te falei. Pense, procure um pastor, um padre, qualquer coisa, mas volte ao normal. Eu estou rezando pra você ser liberto, meu filho. Com fé em Deus você vai se curar dessa doença!!!
Quanta baboseira.
- Peça pra Deus libertar vocês desse preconceito, isso sim. Adeus, mãe. Foi bom ter visto você. Obrigado pelas minhas coisas.
Não falei mais nada, virei e saí andando calçada acima. Cada passo que eu dava, a saudade da minha família aumentava.
Por pior que eles fossem, por mais preconceituosos que eles fossem, eles eram a minha família. Meu pai, minha mãe e meu irmão eram as únicas pessoas que eu tinha na vida e não estar perto deles doía. Doía muito. Doiá tanto que eu podia jurar que a dor era tangível. E por mais forte que aquela dor fosse, não existia nada que pudesse ser feito. Pelo menos naquele momento. Só o tempo diria se as coisas voltariam ou não ao normal entre a minha família e eu. E a única coisa que eu podia fazer naquele momento, era esperar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Capítulo 4

M

eu coração bateu tão rápido que a minha cabeça passou a doer imediatamente. Eu fechei a página da internet e fitei meu pai, já começando a tremer de medo:

- RESPONDE!
Fiquei calado. Não consegui responder nada.
- EU FALEI PRA VOCÊ RESPONDER!!!
O tapa que ele deu no meu rosto me fez cair da cadeira giratória.
- Pai...
- ENTÃO É ISSO... ENTÃO É POR ISSO QUE VOCÊ ANDA COM AQUELE IMUNDO... PORQUE VOCÊ É QUE NEM ELE...
- Eu posso explicar – meus olhos estavam cheios de lágrimas.


Outro tapa.
- Deixa eu te explicar, pai... – comecei a chorar.
- EXPLICAR?
Ele me bateu de novo e em seguida começou a espancar as minhas costas com socos.
- PARA PAI – urrei de dor...
- O QUE É ISSO, EDSON? – minha mãe entrou desesperada no quarto.

- SEU FILHO... – ele não parava de me bater. – SEU FILHO...
- O que tem o menino, Edson? Para de bater nele...
Cada tabefe que ele me dava doía mais na minha alma que no meu corpo. Eu caí de novo no chão e ele começou a me chutar.
- Ai... – choraminguei.
- ESSE FILHO DA PUTA É VIADO... MAS EU VOU DAR O QUE ELE MERECE... ELE VAI APREDER A SER HOMEM...
- PARA, PAI, PARA PELO AMOR DE DEUS...
Edson chutou o meu estômago e eu fiquei completamente sem ar. Meu corpo estava doendo muito.
- CHEGA, EDSON, VOCÊ VAI MATÁ-LO –minha mãe foi ao meu auxílio e ficou na frente do meu pai.
- ERA O QUE EU DEVERIA FAZER... VIADO, NOJENTO, IMUNDO... SOME JÁ DA MINHA CASA...
Eu não consegui falar nada. Meu braço estava doendo tanto que era bem capaz que estivesse quebrado, mas a dor não chegava nem perto da que eu estava sentindo na barriga.
- Tá... Doendo... – eu tentei falar.
- TÁ DOENDO? TÁ DOENDO? VAI DOER MUITO MAIS...
Outro chute.
- PARA... – implorei. – PARA, PELO AMOR DE DEUS...
- VOCÊ NÃO É DE DEUS, VOCÊ É DO DEMÔNIO!!! PESSOAS DA SUA LAIA SÃO FILHOS DO DEMÔNIO!!!
- JÁ CHEGA, EDSON. SE VOCÊ CONTINUAR BATENDO NELE EU VOU TE DENUNCIAR PRA POLÍCIA!
- VAI ACOBERTAR ESSE DESGRAÇADO, FÁTIMA? É ISSO MESMO QUE VOCÊ VAI FAZER?
- NÃO VOU ACOBERTAR NINGUÉM. SÓ NÃO QUERO QUE VOCÊ BATA NO MENINO...
Senti gosto de sangue na boca e algo molhado no nariz.
- Ele está sangrando...
- QUE MORRA!
- Me ajuda... – supliquei. – Me ajuda...

Minha mãe não esboçou nenhuma reação naquele momento.
Com muita dificuldade eu fiquei de pé e comecei a andar. Eu queria sair dali o mais rápido possível.
- Deixa eu te ajudar, filho... – minha mãe começou a chorar.
- SE VOCÊ COLOCAR AS MÃOS NELE VAI PAGAR O PATO – meu pai berrou. – DEIXA ESSE DESGRAÇADO SE VIRAR SOZINHO!!!
- Mas, Edson..
- NÃO COLOQUE AS MÃOS NESSE LIXO, FÁTIMA. SE COLOCAR EU TE MATO!!!
Enquanto eu descia as escadas a dor só fez aumentar. Quando cheguei no último degrau, virei o pé e caí deitado no chão.

- LEVANTA DAÍ – meu pai ordenou. –LEVANTA E SOME DAQUI... DESAPARECE DA MINHA CASA... NÃO QUERO TE VER MAIS NENHUM SEGUNDO DEBAIXO DESSE TETO...
Eu sentei e tentei ficar de pé, mas meu tornozelo estava doendo demais e eu não consegui apoiar o pé no chão.
- EU FALEI PRA VOCÊ LEVANTAR!!!
Aquele que dizia ser meu pai me segurou com tanta força que meu corpo tombou por causa das dores.
- AI – berrei. Meu braço, meu estômago e meu pé estavam latejando ao extremo...
- DESAPARECE – ele repetiu. – EU NUNCA MAIS QUERO TE VER AQUI... VIADO NOJENTO!
- Meu pé... meu pé...
Edson abriu a porta da sala e me empurrou pra fora de casa, me levou até a rua e fechou o portão na minha cara.
- Filho... – minha mãe choramingou.
- NUNCA MAIS COLOQUE OS SEUS PÉS IMUNDOS AQUI, ENTENDEU?
Ao levantar cambaleei e me segurei no portão da casa ao lado. Se não bastassem as dores que eu estava sentindo, meus olhos estavam embaçados por causa das lágrimas e eu não estava enxergando nada direito.
- ENTRA, FÁTIMA – ele mandou.
- Mas...
- ENTRA AGORA OU VAI SOBRAR PRA VOCÊ TAMBÉM!
- Ele é seu filho, Edson...
- NÃO É PORRA NENHUMA. EU NÃO TENHO FILHO BICHA. MEU FILHO É O CAUÃ, SÓ O CAUÃ!!!
- AI – gritei quando coloquei o pé no chão.
Meu pai puxou minha mãe pelo braço e eles entraram. Meu corpo não aguentou e eu caí sentado no chão.
Estava chorando tanto que a minha camiseta já estava molhada. Era um misto de lágrimas e sangue. Eu limpei mais um pouco do sangue do meu rosto na manga direita da minha camiseta e respirei fundo e aos poucos, eu consegui ficar de pé.
Eu estava expulso de casa. Sozinho. Abandonado pela minha própria família e o pior de tudo: sem lugar pra ficar. Eu não fazia a menor idéia do que seria a minha vida dali em diante. Onde eu ia morar? Na rua? Como eu ia sobreviver? O que eu ia fazer da vida???

Infelizmente eu não tinha nenhuma resposta para aquelas perguntas. O desespero tomou conta do meu corpo. O que eu ia fazer, Deus? Nem andar eu estava conseguindo... a dor não estava me deixando pensar, mas será que tinha alguma solução? Será que existia uma luz no fim do túnel???

3º Capítulo

- Desculpa – empurrei de leve o meu melhor amigo e saí de cima da cama dele. – Não posso fazer isso!
Víctor suspirou. Eu fiquei na janela e respirei profundamente. Meu coração batia acelerado.
- Tudo bem – a voz dele entrou nos meus tímpanos. – Eu vou respeitar o seu limite.
- Obrigado, Víctor.
- Sabe, você não deveria ficar com tanto medo assim.
- Eu sei, mas é mais forte do que eu. Desculpa.
- Não precisa se desculpar, Caio!
- É melhor eu ir embora, Víctor.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Então eu vou te levar até o portão.
Nós saímos do quarto e ele me acompanhou até a calçada. Chegando lá, nós trocamos um olhar e nos despedimos com um aperto de mãos:

- A gente se vê amanhã – falei.
- Beleza. Se cuida e vê se pensa no que aconteceu.
- Vou pensar – abri um sorriso sincero.
- Até amanhã então.
- Até amanhã, Víctor.
Saí andando e aos poucos, consegui me acalmar por completo.
Eu tinha perdido a chance de dar meu primeiro beijo gay, é verdade, mas eu tinha certeza que se tivesse ficado com o Víctor, nossa amizade nunca mais seria a mesma.
E eu tinha certeza que com o passar dos dias, meu melhor amigo iria acabar concordando comigo. Eu só estava na torcida para que ele não ficasse chateado comigo.
Chegando em casa, pensei que teria um momento de paz para pensar em tudo o que tinha acontecido e pra colocar a cabeça no lugar, mas ao invés disso, fui recepcionado com um verdadeiro inquérito policial:


- Onde você estava, moleque? – meu pai perguntou, com cara de poucos amigos.
- Na casa do Víctor... – falei sem pensar.
- NA CASA DAQUELE DESGRAÇADO? O QUE VOCÊ ESTAVA FAZENDO LÁ, MOLEQUE?
- O Víctor não é desgraçado, pai...
- QUANTAS VEZES EU VOU TER QUE FALAR QUE NÃO QUERO VOCÊ ANDANDO COM ESSE TIPINHO, CAIO?
- Quer parar de gritar? Eu não sou surdo!
- O que está acontecendo aqui? – minha mãe apareceu na sala de sopetão.
- Seu filho, Fátima! Seu filho que continua andando com aquele... inseto nojento!
- Filho... – minha mãe me olhou com carinho. – Você precisa parar de andar com esse garoto. Ele não é companhia pra você.
- Até você, mãe? Até você? – me revoltei.
- Ele é má-influência, Caio...
- Má-influência? – eu ri. – Ele é má-influência? O Víctor é muito melhor que muita gente que conheço por aí!!! Francamente...
- Onde é que você vai, moleque? – meu pai esbravejou quando eu comecei a caminhar até a porta da sala.
- Andar de bicicleta. Posso? Ou vocês dois vão me amarrar na barra da cama?
Fiquei tão irritado com aquele preconceito de meus pais que bati a porta e o portão quando saí de casa. Como eles podiam ser tão retrógrados daquele jeito?
Nervoso, o que eu queria naquele momento era respirar ar puro e colocar as ideias no lugar. Por causa disso, pedalei pelas ruas de Higienópolis e só parei quando cheguei em um dos parques da cidade de São Paulo, este, bem longe do bairro em que eu vivia.

Por se tratar de um domingo e já ter anoitecendo, o parque não estava tão lotado como em outros dias da semana. Lá eu pude finalmente me acalmar de verdade e consegui colocar a cachola no lugar.
Pensei em tudo o que estava acontecendo. Como seria a reação do meu pai quando ele soubesse que eu era gay? Se ele já me tratava daquele jeito só por ter amizade com um homossexual, o que faria quando soubesse que eu também era um?
Com toda a certeza do mundo, a reação não seria nada boa... e era por causa disso que eu ficava com medo de abrir o jogo para eles! Eu sabia que seria maltratado por todos caso a verdade aparecesse.
Fiquei andando na ciclovia do parque até cansar e quando isso aconteceu, dei meia-volta, no intuito de regressar pra casa, porém vi que estava sendo seguido de longe pelo meu irmão gêmeo e isso me deixou enfurecido:
- EU NÃO ACREDITO!
Quando Cauã percebeu que eu tinha notado a sua presença, tentou sair correndo com sua bicicleta, mas por sorte, eu consegui alcançá-lo:
- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?
- Ué... O mesmo que você!
- Foi ele não foi? Foi ele que te mandou aqui! Ele te mandou me seguir...
- Tá louco, irmãozinho? Do que você está falando?
- Não se faça de desentendido! Eu sei que foi o nosso pai que mandou você me seguir...
- E como você sabe? Comprou uma bola de cristal por acaso?
- VOCÊ É RIDÍCULO, CAUÃ!
- Calma, irmãzinha! Está nervosa?
- NÃO – eu gritei e deixei a bicicleta cair no chão. – EU ESTOU NERVOSO, ENTENDEU? NERVOSO!
- Você pode até enganar nossos pais, irmãzinha! Mas a mim você não engana! Eu sei muito bem o que você é...
- O que você ACHA que sabe, Cauã?
- Que você é boiola! Uma bichinha igualzinho ao seu “melhor amigo” – ele debochou e deu risada da minha cara.
Não me contive e quando percebi, Cauã e eu já estávamos brigando feito duas crianças:
- CALA A SUA BOCA! – gritei e dei um soco no nariz dele
. – VOCÊ NÃO SABE O QUE ESTÁ FALANDO!
- SEU VIADINHO! SEU BOIOLA, BICHINHA, GAYZINHO...
Cauã também acertou um soco no meu rosto, mas eu não senti dor naquele momento. O meu ódio era tão grande que fez qualquer outra coisa parecer superficial naquele momento.
- O que está acontecendo aqui? – um guarda se aproximou de nós dois.
Cauã e eu paramos de brigar no ato, mas nos fuzilamos com os olhos. Ele me lançou um olhar mortal.
- Eu fiz uma pergunta! O que está acontecendo aqui?
- Não é nada, Seu guarda – falei. – Eu já estou indo embora!
- Pois então andem logo. Se eu ver os dois brigando de novo, vão direto pra delegacia.
Cauã e eu não nos mexemos. Ele ainda estava me matando com os olhos.
- Andem! Circulando! Os dois!
Peguei a minha bike e saí daquele parque. Era melhor não abusar porque eu não tinha levado documentos e não estava nem um pouco a fim de me meter em encrenca por causa do idiota do Cauã.
Não quis ir pra casa de imediato, senão as coisas poderiam piorar entre nós dois, então continuei pedalando pela cidade, completamente sem rumo.
Não dava pra acreditar que meu pai tinha mandado meu irmão me seguir. Onde estava a confiança que ele dizia ter em mim? Será que ele achava que eu era uma criança? Que não sabia fazer as coisas? Até quando aquela situação ficaria daquele jeito?

Eu estava me sentindo acuado. Se não podia ter liberdade, o que seria da minha vida? Será que eu ficaria refém do preconceito da minha família pra sempre?
Só voltei pra casa quando de fato me senti cansado. Não prestei atenção nas horas e por causa disso, acabei chegando um pouco tarde demais.
Para a minha tristeza, acabei trombando com meu pai na escada e é claro que eu fui tirar satisfações com ele. Eu não ia deixar aquilo barato!
- Satisfeito? Precisava mandar seu preferido me seguir?
- Precisava sim. Eu queria ver se você ia ou não pra casa do seu amiguinho – Edson não disfarçou a irritação que estava sentindo.
- Pensei que você confiasse em mim, pai!
- Disse certo, Caio. Confiava. Não confio mais. Só vou voltar a confiar quando você parar de frequentar a casa daquele desgraçado!
- Pois então você não vai confiar em mim nunca mais. Boa noite.
- Isso são horas? – minha mãe estava parada na porta do meu quarto. – Muito bonito! Brigando com seu irmão no meio da rua?!
- Agradeça ao seu marido!
- Deixa eu ver esse machucado!
- Não – me afastei e em seguida abri a porta do meu quarto. – Vai cuidar do seu preferido que você ganha mais.
E dizendo isso eu entrei e passei a chave na porta.
- Caio? – Fátima começou a bater na madeira. – Abre essa porta! Deixa eu ver esse rosto, menino!
- Não precisa ver nada! Já disse pra você cuidar do Cauã, que é seu filho preferido! Deixa que eu me viro sozinho.
Ela insistiu por mais alguns minutos, mas eu não cedi. Caí na cama e chorei de tanta raiva que estava sentindo. Eu não estava mais aguentando aquela pressão e não sabia até quando suportaria aquilo tudo.

Quando cheguei no colégio na manhã seguinte, Víctor foi ao meu encontro e ficou espantado quando viu o corte no meu lábio inferior:
- O que é isso na sua boca?
- Briguei com o Cauã!
- Por quê?
- Ah, depois eu te explico!
- Está tudo bem?
- Mais ou menos...
- São seus pais, não é?
- Uhum.
- Olha, Caio, eu vou entender se você não quiser mais falar comigo...
- Cala a boca, Víctor – eu bufei de raiva. – É claro que eu vou continuar falando com você!
- Sério?
- Claro! Eu não vou obedecer a ninguém. Eu mando na minha vida, eu sei o que é melhor pra mim.
Meu melhor amigo ficou tão feliz com as minhas palavras que me abraçou ali mesmo. Ouvi umas risadinhas ao meu redor quando isso aconteceu.
- É melhor a gente entrar – falei.
- Eu só vou ao banheiro primeiro e a gente se encontra na sala.
- Beleza – concordei.
Saí andando e antes mesmo de chegar na sala de aula, fui abordado pela minha amiga Amanda, que também questionou o que acontecera com meu rosto:
- O que você fez na boca?
- Briguei com o Cauã!
- Por isso ele não veio hoje?
- Sei lá! Nem sabia que ele tinha faltado. Talvez esteja atrasado.
- Deixa isso pra lá! Eu tenho uma novidade pra você.
- Que novidade?
- Sabe a Joyce?
- Sei sim. Que é que tem ela?
- Ela veio falar comigo. Disse que está a fim de ficar com você.
Senti meu rosto queimar.
- Sério?
- Uhum. E aí? O que eu digo?
- Ah, sei lá... Não sei se é uma boa ideia.
- Por que não? Não gosta dela?
- Não é isso, Amanda. Eu só estou tranquilo. Entende?
- Ah, Caio... Coitada! Ela é tão legal...
- Eu vou pensar.
- O que eu digo pra ela?
- Nada. Por enquanto.
Voltei a andar e quando entrei na minha sala, vários amigos do Cauã ficaram rindo da minha cara. Isso fez meu sangue subir pra cabeça rapidinho.
- Bando de idiotas – falei comigo mesmo.
- Falando sozinho? – Víctor apareceu atrás de mim de repente.
- Que susto, cara! Quer me matar do coração?
- Não! Ei, você pensou sobre o que aconteceu ontem?
- Sinceramente? Não!
- Nossa... Que sinceridade!
- Preferia que eu mentisse pra você?
- Não...
- Então não reclame.
Durante toda a aula, fiquei acompanhando de longe os olhares que a turma do Cauã me lançava. Vez ou outra, um deles segurava uma risada e eles não paravam de falar entre si. O que estariam pensando ao meu respeito?
Coloquei a mente pra funcionar e lembrei do diálogo que tive com meu gêmeo no dia anterior. Ele disse com muita certeza que eu era gay... E como ele podia ter tanta certeza daquele jeito?
Não poderia ser apenas um “sexto sentido”. Ele deveria saber de alguma coisa. Mas como? O único que sabia que eu curtia a fruta era o Víctor e eu tinha certeza que ele não tinha falado nada pra ninguém. Ou eu estava enganado?
Será que eu estava enganado? Será que o Víctor tinha aberto a boca e tinha contado o meu segredo pro Cauã? E se aquilo tivesse realmente acontecido?
Não pude acreditar nos meus pensamentos, mas era a única coisa que fazia sentido naquele momento! Quem mais poderia falar a não ser o Víctor? Ninguém!
- Que cara é essa? – ele perguntou, no meio da aula.
- Não é da sua conta! – resmunguei.
Só podia ter sido o Víctor... meu melhor amigo... que decepção...
Fiquei tão irritado com tudo o que estava acontecendo que acabei falando pra Amanda pedir pra Joyce me encontrar na frente da biblioteca no intervalo. Eu ia ficar com ela e ia fazer isso com o único intuito de manter a minha imagem de heterossexual. Eu não ia deixar ninguém tirar conclusões ao meu respeito, muito menos a turminha do meu irmão gêmeo!
E quando chegou a hora do intervalo, o Víctor tentou se aproximar de mim, mas eu cortei o barato dele rapidinho:
- Me solta – dei um pulo pra trás. – Não fica perto de mim não...
- Nossa, amigo... o que aconteceu? Isso tudo é pelo que houve ontem?
- Não sei! Por que você não pensa um pouco e tira as suas próprias conclusões?
Saí ao encontro da menina e notei que ela já estava me esperando no local combinado. Joyce estava bonita naquele dia.

- Oi – falei.
- Oi! Tudo bem? Nossa, o que aconteceu com seu lábio?
- Eu tive uma briga com meu irmão.
- Por isso ele não veio hoje?
- Acho que sim.
- Mas está tudo bem?
- Sim, sim. Não se preocupe.
Trocamos algumas palavras e quando o assunto acabou, eu comecei a beijá-la. Não era a primeira vez que eu ficava com uma garota e novamente não senti nada. Absolutamente nada.
Pronto! Estava feito. Eu estava ficando com uma garota. Eu tinha certeza que à partir daquele momento, ninguém falaria nada ao meu respeito. Pelo menos eu estava torcendo para que as coisas acontecessem desse jeito.
- Você beija muito bem – ela sorriu, quando o beijo acabou.
- Você acha?
- Tenho certeza!
- Obrigado! Você beija bem também. Vamos subir?
- Uhum.
Joyce e eu subimos as escadas pro corredor da salas de aulas de mãos dadas e quando íamos entrar, o Victor me puxou pelo braço e disse:
- Eu não acredito!
Não falei nada, simplesmente me soltei das garras daquele garoto e entrei na sala de aula. Nem ele e nem ninguém tinha o direito de se meter na minha vida.
Será mesmo que o Víctor tinha dito alguma coisa ao meu respeito pros garotos? E se eu estivesse fazendo um falso julgamento do meu melhor amigo? Mas e se eu estivesse certo?
Pelo sim e pelo não, era melhor eu continuar com meu joguinho. Eu ia continuar ficando com a Joyce e ia continuar dando gelo no Víctor até tirar aquela história a limpo. Eu só não sabia dizer por quanto tempo ficaria a mercê daquela situação.

Uma semana depois da briga com o Cauã ter acontecido, eu ainda não estava falando com ele e tampouco ele me dirigia a palavra.
- Até quando vocês vão ficar com essa criancice? – minha mãe estava nervosa
Nem me dei ao trabalho de responder.
- Do que você está falando? – meu irmão se fez de sonso.
- Não se faça de desentendido. Onde já se viu dois irmãos ficarem sem se dirigir a palavra? E ainda mais sendo gêmeos?
- Não sei no que isso pode interferir – eu falei.
- Antes eu tivesse sido filho único – ele provocou.
- Taí, nisso eu concordo com você... Você poderia ter sido filho único. Não entendo porquê nós temos que ser gêmeos!!!
- Porque é da vontade de Deus – disse a minha mãe.
- Que baboseira – Cauã estava sem paciência.
- Não duvide dos desígnios de Deus, Cauã.
- Ai que papinho retrógrado – ele levantou da mesa.
- Vou pra escola que eu ganho mais –resmunguei.
- Desde que não vá comigo, você faz o que quiser – meu irmão me fuzilou com os olhos.
- Pode ficar bem tranquilo. Eu não pretendo ir com você. Sei bem qual é o caminho do colégio.
- Pelo menos nisso a gente concorda...
Deixei ele pra trás e saí de casa. A manhã estava um pouco gélida naquele dia.
- Bom dia – Joyce foi correndo me cumprimentar com um beijo.
- Bom dia, lindinha – ela era lindinha, mas eu não gostava dela como mulher.
Joyce me deu um beijo apaixonado.
- Quer almoçar em casa hoje?
- Não – respondi de imediato.
- Direto você.
- Ah, acho que ainda é cedo pra isso.
- Hum...
- Não vai me levar a mal, não né?
- Não, é claro que não.
- Vamos entrar? – indaguei.
- Seu irmão não para de olhar pra gente.
- Deixa aquele idiota pra lá.
- Ainda estão brigados?
- Qual a novidade? Nós sempre brigamos.
- Então vamos entrar.

Quando eu entrei no banheiro masculino, dei de cara com o Víctor. Nós nos olhamos por um tempo e depois ele questionou:
- Não vai falar comigo?
- Quando você resolver abrir a boca e me contar o que você andou espalhando ao meu respeito, quem sabe eu volte a falar com você.
- Mas eu não espalhei nada, Caio. Ou você acha que eu saí espalhando por aí o que você me contou?
- Eu realmente espero que não.
- Anda, volta a falar comigo... eu gosto tanto de você...
E eu também gostava dele.
- Tudo bem. Eu volto a falar com você, mas se eu souber que você está espalhando alguma coisa ao meu respeito, você vai se ver comigo!
Ele abriu um sorriso enorme.

- Não confia em mim?
- Pois é, não o suficiente.
- Então eu vou te mostrar que você pode confiar em mim...
- Só quero ver.
- Quando você vai largar a Joyce e ficar comigo?
- Olha aí. Tá vendo porquê eu não confio em você?
- Desculpa – ele fez uma carinha de triste. – Prometo que vou me policiar.
- Assim espero.  


UMA SEMANA DEPOIS...
Eu salvei o meu trabalho em uma pasta e resolvi navegar um pouco pela internet. Li meus e-mails, respondi meus“scraps” do Orkut e em seguida, fucei em algumas comunidades da rede social.
Não detive a minha curiosidade e desejo e acabei entrando em uma comunidade gay. Meu coração disparou quando vi aquelas fotos e algo dentro da minha cueca deu sinal de vida.
- Está se divertindo? – ouvi a voz do meu pai atrás de mim e automaticamente senti meu coração parar de bater e um iceberg descer pela minha coluna dorsal.


2º Capítulo

P

ensei em tudo o que tinha acontecido por várias semanas, mas não consegui achar uma solução para poder contar a verdade para a minha família.
Dessa forma, resolvi continuar na clandestinidade. Mesmo odiando mentiras, era melhor manter a minha máscara de heterossexual até descobrir uma maneira de abrir o jogo para todos. Pelo menos desse jeito eu me sentia seguro.

Independente da vontade do meu pai, continuei minha amizade com o Víctor e sempre que eu tinha oportunidade, ia na casa dele para jogar conversa fora.
- Entra aí.
- Valeu. Está sozinho?
- Sim. Por quê?
- Por nada. Curiosidade.
- Vem, vamos pro meu quarto - ele me puxou pela mão e eu achei aquilo muito estranho.

Quando nós entramos, ele fechou a porta e me fitou com o semblante sério.
- O que foi? - perguntei.
- Nada - respondeu depois de alguns segundos.
- Está acontecendo alguma coisa?
- Não. Por quê?
- Você está estranho.
- Impressão sua...
- Sei. Desembucha!
- Não é nada, sério.
- Beleza, se você tá dizendo...
- Já fez a lição?
- Já e você?
- Ainda não. Me ajuda?
- Fazer o quê, né?
- Você é demais, sabia?
- Vai, começa logo.
Ele ficou estudando por um tempo e depois fechou o caderno com severidade.
- O que foi?
- Não consigo me concentrar.
- Por que? Quer que eu vá embora?
- Não, é claro que não...
- Então?
- Então vamos fazer outra coisa.
- O quê?
- Qualquer coisa...
- Por exemplo?
Ele me fitou, abriu os lábios e não falou nada.
- Caio, você não sente vontade de ficar com um... garoto?
- Claro - nós já havíamos conversado sobre aquilo –, mas você sabe que eu não tenho com quem ficar.
- Na verdade... tem...
Eu arregalei os olhos.
- Quem? - perguntei todo inocente.
- Comigo - ele respondeu baixinho e desviou os olhos para a minha boca.
- Tá ficando louco, né? - caí na gargalhada. Ficar com meu melhor amigo? Sem chance!
- Não, não estou - ele se aproximou.
- Você é meu melhor amigo, Víctor.
- Eu sei, eu sei...
- E você está com o Bernardo, não está?- Não, não estou mais...
- Ah, não?
- Não... não quer... experimentar o beijo de um homem?
Engoli em seco.
- Quero - respondi baixinho –, mas não podemos ficar...
- Podemos sim, ninguém vai saber disso...
- Não - eu insisti. - É melhor não.
- O que é? Não quer que eu seja o primeiro, é isso?
- Não, não é isso, Víctor. Já disse que você é só meu amigo.
- Mas eu não quero ser só seu amigo, Caio...
- O que está dizendo?
Ele estava tão perto que eu senti o cheiro do seu hálito no meu rosto. Meu coração disparou.
- Eu estou dizendo que estou a fim de ficar com você...
Víctor colocou a mão em cima da minha e começou a acariciá-la.
- Não - eu respondi. - Não quero ficar com você.
- Tem certeza?
Suspirei.
- Absoluta.
- Não parece - ele aproximou o rosto bem devagar.

- Pa-para, Víctor - me afastei um pouco.
- Fica calmo, Caio - ele se aproximou novamente. - Não vai acontecer nada que você não queira.
Eu saí da cama e fui até a janela.

- Não insiste, Víctor. Eu não quero estragar a nossa amizade.
- Nossa amizade não vai ser estragada, Caio. É só um beijo!
- Não. Não consigo nem imaginar uma coisa dessas - mas eu estava começando a ficar balançado. Meu amigo era bem gatinho e no fundo, bem no fundo, me chamava a atenção.
- Vem aqui, senta perto de mim...
- Não sei - estava com medo.
- Não fica com medo de mim, Caio. Eu não vou abusar de você.
Sorri.
- Sei que não vai fazer isso, mas é complicado...
- Não sente vontade?
- Sim - confessei.
O boy levantou e foi até onde eu estava.
- Então me dá uma oportunidade, por favor...
- Nã-não sei.
A mão dele foi até o meu rosto, desceu pelo meu pescoço e andou até minha nuca.
- Eu sei que você também quer...
- Não que-quero...
- Quer sim, não minta para você mesmo. Vem?
Víctor começou a me puxar e me levou até a cama. Nossos olhos não desgrudaram e meu coração disparou. Parecia que ia sair pela boca de tanto nervosismo.
- Você é tão lindinho, sabia? – o menino falou baixinho.
- Obrigado...
Víctor me abraçou com ternura e beijou o meu pescoço.

- Fica calmo. Está tudo bem.
- U-uhum - eu estava muito nervoso. Não era certo ficar com o meu melhor amigo.
Ele me empurrou e eu fui obrigado a ficar sob o corpo dele. Nossos lábios ficaram a menos de um centímetro e ele não parou de olhar nos meus olhos.
- Fecha os olhos, bebê...
Bebê? Não consegui. Ele foi se aproximando cada vez mais e quando ia me beijar, eu virei o rosto e seus lábios tocaram a minha bochecha.
- É me-melhor nã-não, Víctor...
- Fica calmo - ele repetiu. - Não vou fazer nada que você não queira.
Meu amigo acariciou a minha nuca e eu comecei a ficar excitado e quando ele percebeu o que tinha acontecido, sorriu e falou no meu ouvido:
- Viu? Você quer tanto quanto eu...
Não soube o que responder. Meu corpo dava indícios que queria aquilo, mas a minha mente falava totalmente o contrário. Eu não sabia o que fazer.
Ficar ou não ficar com o Víctor? E se a nossa amizade estragasse caso aquilo acontecesse? Mas eu queria experimentar o beijo daquele garoto. O beijo do meu melhor amigo...
Eram tantas dúvidas que a minha cabeça começou a latejar. Ele voltou a beijar o meu rosto e quando segurou o meu pênis por cima da bermuda, eu levei um susto.
- Calma, Caio - ele pediu pela enésima vez. - Não está gostando?
- Si-sim, mas não é certo...
- Não seja tão politicamente correto. Isso será o nosso segredinho, confia em mim.
- E-eu confio, mas estou com medo...
- Não fica com medo, gatinho. Não vai te acontecer nada, você vai gostar...
- Nã-não sei... - eu estava muito nervoso. Muito nervoso mesmo.
Víctor segurou no meu rosto com tanta suavidade que eu fui acalmando e relaxando aos poucos. Não dava pra negar que o cara estava sendo extremamente paciente comigo e também um verdadeiro cavalheiro. Em nenhum momento ele me obrigou a nada.
O rapaz beijou a minha orelha e eu me arrepiei, o que fez a minha vontade aumentar ainda mais.
Eu estava ofegante e comecei a ficar suado. Víctor estava tranquilo e seguro do que estava fazendo. Foi naquele momento que eu percebi o quanto ele tinha experiência no assunto.
- Está mais tranquilo?
- Estou.
- Então relaxa mais e curte o momento. Já disse que você vai gostar...
Suspirei e fechei os meus olhos. Eu não tinha o que perder... Ou tinha?
Quando abri as pálpebras, ele estava olhando o meu rosto com os lábios entreabertos. Senti meu corpo tremer de tensão e resolvi deixar acontecer. Ele aproximou o rosto bem devagar e quando me dei conta, nossos lábios já estavam grudados, mas não se mexiam.