U
|
ma explosão de sentimentos tomou conta de mim.
Confesso que, em um determinado momento, cheguei a cogitar a possibilidade
daquele tal admirador secreto se tratar do Bruno. Entretanto, em nenhum
momento, em nenhum momento mesmo, eu acreditei que aquela cogitação pudesse ser
realidade, pudesse ser verdadeira.
Ainda sentado, eu olhei nos olhos dele e tudo dentro de mim começou a vir à tona: raiva, mágoa, tristeza, rancor, incredulidade, impaciência, aversão, saudade, medo, nojo e muitas outras coisas que eu nem consigo enumerar, mas acima de tudo, eu fiquei com muito ÓDIO por ele estar ali na minha frente depois de tanto tempo sem dar nenhuma explicação.
Ainda sentado, eu olhei nos olhos dele e tudo dentro de mim começou a vir à tona: raiva, mágoa, tristeza, rancor, incredulidade, impaciência, aversão, saudade, medo, nojo e muitas outras coisas que eu nem consigo enumerar, mas acima de tudo, eu fiquei com muito ÓDIO por ele estar ali na minha frente depois de tanto tempo sem dar nenhuma explicação.
- Você? – eu senti vontade de partir pra cima dele, mas me controlei. – VOCÊ?
- Olá... – ele abriu um sorriso tímido e sem graça. – Tudo bom, Caio?
- TUDO BOM? – eu comecei a rir. – VOCÊ SOME E AGORA ME PERGUNTA SE ESTÁ “TUDO BOM”?
- Calma... A gente precisa conversar!
- CONVERSAR? – eu já estava totalmente fora de mim. – CONVERSAR? VOCÊ ACHA MESMO QUE A GENTE TEM ALGUMA COISA PRA CONVERSAR?
- Eu não acho – ele estava me olhando nos olhos e parecia um pouco apreensivo. – Eu tenho certeza disso.
- AH, FAÇA-ME O FAVOR, NÉ BRUNO? VOCÊ SOME DO NADA, VOLTA DEPOIS DE 1 ANO E 8 MESES E MEIO – eu falei isso mesmo, juro! – E AGORA VEM COM ESSA QUE QUER CONVERSAR?
- Caio, por favor, fica calmo! Senta um pouco, bebe uma taça de champanhe para você relaxar...
- EU NÃO QUERO RELAXAAAAAAAAAAAAAR – esbravejei. – SE EU SOUBESSE QUE ERA VOCÊ O TAL DO “ADMIRADOR” EU NEM TERIA COLADO OS MEUS PÉS NESSE LUGAR!
- Por favor, Caio... Me deixa te explicar tudo o que aconteceu...
- NÃO QUERO OUVIR NADA QUE VENHA DESSA SUA BOCA NOJENTA, SEU LIXO... EU QUERO MAIS É QUE VOCÊ EXPLODA!!!
Joguei a minha cadeira para debaixo da mesa e sem pensar duas vezes saí de onde estava. Respirar o mesmo ar que o Bruno estava me dando náuseas.
- Está tudo bem, senhor? – o cara que me atendeu perguntou.
- Vai pro inferno!
Percebi que algumas pessoas que estavam nas mesas me olharam. Eu ziguezagueei entre uma cadeira e outra e saí feito um vendaval pela porta do restaurante.
Como ele foi capaz? Como ele teve coragem de me procurar depois de tanto tempo? Como ele teve capacidade para inventar aquela história de “admirador secreto” para encontrar comigo? Como ele foi capaz de mentir a idade? Como ele conseguiu me enganar com a história que eu estava lindo e cheiroso???
Mas o que eu podia esperar do Bruno? O que eu podia esperar daquele idiota? A verdade? Nunca que eu ia esperar isso dele. Podia esperar a verdade de qualquer um, menos dele.
Falso! Foi isso que ele foi. Mais uma vez um falso, duas caras, carta de baralho!!!
- Ai que ódio, ai que ÓDIO! – eu bufei e atravessei a rua. – Filho da puta, desgraçado...
Senti vontade de chutar alguma coisa. A vítima foi uma caixa de papelão que estava encostada em um poste. O objeto foi parar no meio da rua, mas eu nem me importei.
- ESTÁ DOIDO? – ouvi uma mulher gritando.
- FODA-SE!
A sensação que eu estava tendo era que eu seria capaz de cometer um assassinato naquela noite de domingo. Eu nunca me imaginei sentindo tanto ódio de alguém como eu estava sentindo naquele momento!
Não sei se foi sorte ou um acaso do destino, mas de repente me vi perto do mar. Acredito que o meu instinto tenha me levado até o oceano, porque eu estava andando sem rumo e não sabia onde ia parar.
- Desgraçado... Desgraçado... – eu falei.
Eu sentei na calçada, tirei os tênis e as meias e em seguida arregacei a barra da minha calça para não sujá-la de areia. Eu precisava caminhar pela beira do mar para me acalmar um pouco e também para colocar as ideias em ordem.
Eu estava no Leblon, um dos bairros mais chiques do Rio de Janeiro, mas nem estava conseguindo prestar atenção em nada ao meu redor. Eu só conseguia pensar naquele vagabundo, naquele idiota que tinha voltado depois de tanto tempo...
O meu coração batia feito louco e a minha cabeça já estava doendo. Em nenhum momento eu senti vontade de chorar, nem nenhum outro tipo de sentimento pelo Bruno a não ser ódio. Muito ódio!
- CAIO?
Eu não estava acreditando que ele tinha ido atrás de mim. Olhei pra trás e percebi que o idiota estava correndo até onde eu estava. Ele ainda carregava aquela caixinha em formato de coração nas mãos.
- CAIO, ME ESPERA!
Claro que eu não esperei, né? Continuei andando pela beira do mar e nem sequer olhei pra trás. Só fiz isso quando ele me alcançou e segurou no meu cotovelo.
- Caio... – ele estava sem fôlego. – Vamos conversar, pelo amor de Deus!
- ME SOLTA! – puxei o meu braço e continuei andando. Eu andava pisando forte, como se estivesse marchando.
- Caio, por favor...?
- ME DEIXA EM PAZ – eu gritei. Ainda bem que a praia estava vazia.
- Me ouve, Caio... Pelo amor de Deus!
- NÃO COLOCA DEUS NESSA HISTÓRIA, SEU FALSO! – eu me virei contra ele e parei de andar. – SEU DESGRAÇADO, SEU IDIOTA, SEU... SEU... SEU... LIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIXO!!!
- Por favor, por favor... A gente pode conversar?
- ME SOLTA, NOJENTO... NÃO COLOCA A MÃO EM MIM!!!
- Caio... – ele estava desesperado.
- SEU VEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEERME – apertei meus dentes com toda a força que tive e dei o primeiro tapa no Bruno. – SEU LIXO, SEU IDIOTA...
A cada xingo era um tapa que eu acertava nele.
Bruno começou a se proteger com os braços. Ele ficou um pouco corcunda e envolveu o rosto com os braços e foi aí que eu senti vontade de partir pra briga de verdade.
- NOJEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEENTO... VOCÊ ACABOU COM A MINHA VIDA, SEU PORCARIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIA – bati com tanta força nas costelas dele que senti a minha mão adormecer. – VOCÊ É UM INSEEEEEEEEEEEEEEETO, VOCÊ É UM VEEEEEEEEEEEEEEEEERME, É UM MICRÓÓÓÓÓÓÓBIO!!!
- Para, Caio... Para, por favor...
- EU TE ODEEEEEEEEEEEEEEEIO, EU TE ODEEEEEEEEEEEEEIO, EU TE ODEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIO!!!!!!!!!!!!!!!!!!O!
Parecia até que eu estava possuído. O meu ódio era tão grande que a minha boca estava até espumando. Isso nunca havia acontecido antes e eu jamais imaginei que chegaria a esse ponto.
Eu estava me sentindo cansado, muito cansado. Parei de bater no idiota e em seguida ele ergueu o corpo e me olhou. Ele estava chorando.
Não falamos nada, mas se eu pudesse, teria continuado as ofensas, porque ainda estava com muita coisa presa na minha garganta.
- Está chorando? – fui sarcástico. – Eu acho é pouco! Chora mesmo... Chora bastante, chora idiota... Tomara que você se sufoque com essas lágrimas de crocodilo, desgraçado!
- Me deixa explicar o que aconteceu, por favor...
- Não quero saber de explicações. É muito tarde pra isso. Some da minha frente, me deixa em paz, volta pra sua vidinha medíocre e me deixa viver a minha vida!
- Caio...
- SOME DAQUI – eu me descontrolei completamente e voltei a agredi-lo. – EU ESTOU COM VONTADE DE TE MATAR, SEU NOJENTO!
- Para, por favor...
- NÃO VOU PARAR... NÃO VOU PARAR!
Bati em tudo que foi canto e outra vez ele protegeu o rosto com os braços, mas isso não me impediu de dar uns bons tapas na cabeça dele.
- VOCÊ ACABOU COM A MINHA VIIIIIDA!!!
- Por favor, não me bate mais...
- TÁ DOENDO? EU ACHO É POUCO! ISSO NÃO É NADA COMPARADO AO QUE EU SENTI QUANDO VOCÊ ME ABANDONOU, VERME!
- Eu posso explicar... Eu posso explicar...
- ENGULA AS SUAS EXPLICAÇÕES! ME DEIXA EM PAZ, NÃO ME PROCURA MAIS, SOME DA MINHA VIDA... VOLTA PRA ONDE VOCÊ ESTAVA E NUNCA DEVERIA TER SAÍDO, DESGRAÇADO!
- Eu tenho tanta coisa pra te falar, Caio... Tanta coisa...
- Pouco me importa – me acalmei um pouco, mas ainda estava tremendo de raiva. – Agora é tarde demais para você me explicar o que aconteceu. Eu quero que você vá pro inferno com as suas explicações!!!
E dizendo isso eu comecei a sair da praia. andei a passos largos até o calçadão e tentei fazer o possível para não ter que encontrar mais com ele, mas ele saiu atrás de mim outra vez:
- Pelo menos aceita o meu presente – ele estendeu a caixinha em formato de coração.
O mais difícil foi calçar os tênis com os pés cheios de areia. Isso me deixou extremamente incomodado.
- Sabe o que você faz com esse presente? ENFIA NO C...
Eu virei pra avenida e levantei a mão porque estava vindo um táxi. Ele parou, eu abri a porta, entrei e disse:
- REALENGO, POR FAVOR.
- CAIO, NÃO VAI EMBORA...
Mas já era tarde demais. O carro já tinha começado a andar e a única coisa que eu fiz foi colocar a mão direita pra fora do vidro e erguer o meu dedo do meio. Aos poucos ele foi ficando pra trás, até que desapareceu do meu campo de visão.
- Filho da puta, filho da puta...
- Está tudo bem, menino? – o motorista perguntou.
- Não é da sua conta!!!
Eu ainda estava tremendo e um iceberg do tamanho do oceano atlântico estava dentro da minha barriga. Eu estava sentindo um nó imenso na minha garganta e uma compressão gigantesca no meu peito.
Fui ficando sem ar e engasgado e fui obrigado a abrir toda a janela do lado do carona para ver se conseguia respirar melhor.
Em nenhum momento eu chorei e também não estava sentindo vontade. A minha vontade maior era de quebrar alguma coisa, chutar alguma coisa, dar um tiro em alguém ou mandar uma pessoa qualquer dessa pra uma melhor.
Que ódio que eu estava sentindo do Bruno! Ele foi capaz de mentir, dizendo que tinha entre 20 e 30 anos, foi capaz de falar que eu estava muito cheiroso e lindo e inventou todas aquelas outras mentiras idiotas que me mandou por mensagens... Mas para quê ele havia feito isso?
Eu só consegui chegar a uma explicação. Ele deve ter feito isso para eu não pensar que era ele, afinal de contas eu tinha ido falar com o idiota do Vítor para perguntar se ele tinha alguma coisa a ver com aquelas mensagens...
- Mas é claro! – exclamei comigo mesmo. – COMO EU SOU IDIOTA!
Só podia ter sido o tonto do Vítor que deu meu celular ao idiota do Bruno... Os dois se mereciam. Um era pior que o outro. Como eu fui capaz de acreditar neles? Como?
Não fiz outra coisa a não ser pensar no Bruno. Menos de 5 minutos depois de ter entrado naquele táxi, o meu celular começou a tocar e é claro que só podia ser ele.
Não atendi e em seguida desliguei o aparelho. Se eu pudesse, teria jogado meu celular pela janela só pra ele não me incomodar mais. O celular eu não podia jogar, mas o chip eu podia. E não deu outra: abri a tampa do meu aparelho, tirei a bateria, tirei o chip e o joguei pela janela.
- Liga agora, filho da puta.
Não estava nem um pouco preocupado em trocar meu número. Ia fazer isso com o maior prazer do mundo, o importante era ele não entrar mais em contato comigo.
Que ódio, meu Deus... Que ódio! Fiquei olhando pela janela do carro e tentei me acalmar um pouco, mas isso foi impossível. Estava realmente tomado por aquele sentimento horrível. Era como se algo muito pesado estivesse dentro do meu corpo. É uma sensação que eu não recomendo para ninguém.
Fiquei muito feliz quando cheguei no meu bairro. Olhei o taxímetro, suspirei, tirei dinheiro da minha carteira e entreguei ao motorista.
- Pode parar naquela portinha ali, por favor.
- Aqui? – o cara perguntou quando chegou na frente da minha casa.
- Isso. Pode ficar com o troco. Obrigado.
Desci do carro e fui direto enfiando a chave no buraco da fechadura. Quando entrei, bati a mesma com o máximo de força que consegui. Que raiva eu estava sentindo!
- O que foi isso? – alguém estava se aproximando da escada. – Caio?
Era o Miguel. Eu passei a chave e subi a escada de dois em dois degraus. Bufei duas ou três vezes e passei pelo Miguel sem falar nada.
- O que aconteceu, Caio? – ele perguntou.
- Na boa? – parei e o fitei. – Não estou a fim de falar. Boa noite!
Maicon e Éverton estavam na sala. Percebi que ambos me olharam, mas não falaram nada. Pelo menos eles souberam respeitar o meu momento.
Fui direto pro quarto e encontrei o Rodrigo deitado na cama. Como eu bati a porta com força, ele parou de assistir televisão e disse:
- Está tudo bem?
- NÃO!
Dei um chute no pé da beliche dos meninos e em seguida caí deitado na minha cama. Que ÓDIO, que ÓDIO!
- O que aconteceu? – Rodrigo pulou da cama e sentou na minha. – Por que você está assim?
- O Bruno voltou – eu falei isso olhando pro lastro da cama do meu amigo.
- Hãããã?
- É isso mesmo que você ouviu. O Bruno voltou. E ele era o meu admirador secreto.
- Não acredito?! E como você está se sentindo, Cacs?
- Com ódio, Diguinho – eu sentei e olhei na face do meu amigo. – Com muito, muito ódio dele.
Foi mais rápido do que eu poderia imaginar. Ele me agarrou com muita força e eu acabei ficando um pouco sem ar. Eu não imaginei que aquilo fosse acontecer, não depois de tanto tempo...
- Fica calmo, tá bom? – a voz baixa dele me deixou arrepiado. – Eu prometo que vou cuidar de você!!!

Nenhum comentário:
Postar um comentário