Levantei da cama como um raio.
- Digão, posso ver seu celular?
- Meu celular? O que você quer ver no meu celular?
- Uma coisa, deixa eu ver, por favor? – estendi a mão.
- Como assim “uma coisa”? Não senhor, só vou deixar você ver se me falar o que é.
- Não é nada demais – eu bufei e tirei o celular de onde estava.
- Caio!
Abri as mensagens, mas não tinha nenhuma enviada pra mim. Não naquele dia. Será que ele tinha apagado?
- Ah... Já vi – entreguei o celular de volta. – Obrigado!
- Cada louco que aparece na minha frente – Rodrigo bufou.
Eu estava encafifado. Teria sido apenas coincidência a história do celular? Eu ia precisar acompanhar isso de perto. Ia ter que analisar bem os fatos para ter certeza se era ou não o Rodrigo que estava me mandando aquelas mensagens.
Se fosse, seria ótimo. Eu ia ficar com ele sem pestanejar. Se não fosse, não teria o menor problema. Eu só teria que ser cauteloso para não criar falsas expectativas.
Até aquele momento, meu melhor amigo não tinha passado de meu melhor amigo. Se ele estivesse começando a se interessar por mim, eu teria que fazer as coisas com calma.
Talvez eu estivesse confundindo as bolas e confundindo feio. Talvez não estivesse confundindo tanto assim, aqueles olhares em cima de mim estavam muito esquisitos.
Que dilema! A minha vida se baseava em um dilema. Sempre ficava em dúvida entre dois caminhos, duas possibilidades, duas ou três escolhas... Só o que faltava era ficar em dúvida entre duas pessoas. Será que isso também ia acontecer?
- Estudando muito? – a cabeça do Digow apareceu no meu campo de visão.
- Cuidado para não cair daí, doido.
- Se eu cair você cuida de mim?
Eu olhei nos olhos dele. Aquilo era pergunta de hetero?
- Você ainda pergunta? – eu sorri.
E ele sorriu também.
- Sabia que você não ia me decepcionar.
Continuei fazendo as lições e só parei quando acabei uma matéria. Estava com tanto sono, mas com tanto sono, que já estava enxergando tudo embaçado.
- Posso desligar a luz? – perguntei ao meu amigo.
- Já terminou as lições?
- Uma matéria sim. Não vou conseguir fazer mais do que isso hoje.
- Então pode sim. Vamos dormir que já é 2:00 da manhã.
- Tudo isso?!
- Tudo issp. Está cansado?
- Pra caramba.
- Bem-vindo ao meu mundo. Era assim que eu me sentia quando estudava e trabalhava.
- Quando vai começar seu estágio?
- Segunda-feira.
- De que horas até que horas?
- É das 14:00 às 20:00.
- Meio período só? Passa rápido! Vai ganhar quanto?
- Só o salário mínimo. Foi o maior que encontrei, mais do que isso não tem.
- Já te ajuda.
- É, mas eu queria ganhar bem que nem você – ele fez bico.
- Eu não ganho bem, é a comissão que me salva.
Tirei a minha roupa e também fiquei só de cueca. Percebi que ele deu uma olhada rápida pro meu corpo e em seguida disfarçou.
Eu precisava conversar com o Digão. Não sei se estava imaginando coisas ou se ele estava mesmo olhando demais pra mim. Eu acho que estava ficando paranóico.
- Boa noite, mano – eu deitei na minha cama.
- Boa noite, Caio – ele bocejou e desligou a televisão.
- Dorme bem.
- Você também.
.
Acordar na manhã seguinte foi um tormento. O Rodrigo me cutucou em tudo que foi canto e eu já estava quase mandando ele praquele lugar:
- JÁ ACORDEI, ME DEIXA EM PAZ – bufei.
- Então levanta, senão vamos nos atrasar!
- Que horas são?
- 6:00.
- Eu só dormi 4 horas? É isso mesmo, produção?
- Isso mesmo. Bem-vindo ao nosso mundo, ao mundo de quem estuda e trabalha.
- Estou lascado!
Sentei na cama e percebi que estava excitado. Só me faltava aquilo.
- Quem vai pro banho primeiro? Eu ou você – perguntou Rodrigo.
- Vai você porque eu acordei com a barraca armada e acho que vai demorar pra ela voltar ao normal.
Meu amigo riu, me fitou, pegou as coisas dele e saiu do quarto.
- Ele está a fim de mim! – falei para mim mesmo.
Suspirei e abracei meu travesseiro. Será que aquele lindinho estava mesmo a fim de mim?
Não sei quanto tempo ele demorou para voltar, mas não foi muito. Eu sentei na cama, mas ainda estava excitado. O jeito foi levantar daquela forma mesmo.
- Ih... O cara está animado hoje – ele gargalhou.
- Sempre – falei sem nenhum constrangimento.
Já que ele tinha visto mesmo, eu não me importei com mais nada. Acredito que essa tenha sido a primeira vez que ele me viu excitado. Se houve outra, eu não estava me lembrando.
- Hoje está calor?
- Está sol lá fora, mas se está calor eu não sei. Por quê?
- Quero ir de regata.
- Está doidinho pra mostrar esses músculos, né?
- Como você sabe?
- E eu nasci ontem por acaso?
- Fala se não tá ficando legal?
- Pior é que tá, espero ficar assim também.
- Se você ficar assim, eu te pego de jeito.
- E eu te mato fácil. Não esquece que eu estou dormindo com o facão embaixo do travesseiro.
- Ah, é verdade. Eu havia me esquecido. Tem alguém no banheiro?
- Na hora que eu saí não tinha ninguém. Posso fazer a barba enquanto você toma banho?
- Pode, mas desde que você feche a porta para o Kléber não entrar.
- Pode deixar que faço isso. Eu arrumei o puxador.
- Eu disse que ia dar pra arrumar – bocejei e saí do quarto com as pernas moles de tanto sono.
Entrei, encostei a porta, tirei a cueca e fui direto pra ducha. Como ainda estava meio cedo, deixei a água cair por um tempão no meu rosto para despertar, mas isso não adiantou nada.
- Estou entrando, hein? – meu amigo falou.
- Entra e fecha a porta.
- Pode deixar.
Lavei os cabelos e tentei acordar de vez, mas isso foi impossível. Dormir 4 horas acabou comigo.
- Digão?
- Hã?
- Pode me trazer meu barbeador?
- Vai fazer a barba aí?
- Você está no espelho...
- Não vai se cortar?
- Não!
Que pergunta sem nexo.
- Aqui – ele bateu no vidro.
- Valeu – passei só a mão e peguei meu prestobarba.
Nós separávamos os prestobarbas com o nome. Tinha que ser assim, porque 8 caras morando juntos as coisas se perdiam.
Os xampus e sabonetes eram enfileirados um ao lado do outro. Cada um tinha uma saboneteira com sabonete individual, contudo, eu tinha certeza que uns usavam os sabonetes dos outros de vez em quando.
- Vai demorar aí? – perguntou Rodrigo.
- Não, por quê?
- Porque eu acho que tem gente querendo usar o banheiro.
- Pede pra entrar, pô.
- Não tem problema?
- Desde que não entre aqui no box, é tranquilo.
- Beleza então.
Eu não ouvi ninguém batendo na porta nem chamando, mas enfim...
- Licença aí – era a voz do Maicon. – Eu só vou mijar, é rapidinho.
- Sem grilo – disse Rodrigo.
Passei a mão pelo rosto e percebi que ele estava liso em todas as partes. Essa foi a hora de desligar a ducha.
- Valeu, Rods. Quem está no banho?
- É o Caio.
- Ah, saquei. Bom dia aí.
- Bom dia, Maicon.
Saí já de cueca. O Rodrigo ainda estava se barbeando e ele ficou muito, muito sexy com aquela espuma toda no rosto.
- Como você ficou sexy – falei.
- Para de graça, moleque!
Eu sequei o meu cabelo e enrolei a toalha na cintura.
- Posso escovar os dentes?
- Só depois que eu terminar. Enquanto isso, vai trocando de roupa para adiantar as coisas.
- Então não demora.
Fui pro quarto, coloquei desodorante, vesti a minha regata branca e dei uma conferida no espelho pra ver se estava legal. Ficou justinha demais... Será que o pessoal ia aprovar? Em seguida coloquei um jeans que tinha dois rasgos nas coxas. Será que ia ficar muito feio?
- Nossa! – Rodrigo me olhou dos pés à cabeça. – Está querendo pegar alguém?
- Por que a pergunta?
- Por causa da sua roupa.
- A combinação ficou boa?
- Acho que sim.
- E esse jeans? Está muito provocativo?
- Que nada! Você já usou várias vezes. Eu tenho um igual, lembra?
- Sim, sim. Foi por isso que eu comprei. Vou assim mesmo, foda-se. Gostou?
- Passou pelo teste do Inmetro, mas você não respondeu a minha pergunta. Está querendo pegar alguém?
- Sim!
- Quem?
- VOCÊ!
- Isso é sério? – ele ficou hiper vermelho.
- E se for?
- Já te falei que não rolaria...
- Eu posso te fazer uma pergunta? – meus olhos não saíram dos dele um segundo sequer.
- Claro que pode – Rodrigo ergueu as sobrancelhas e fez cara de curioso.
- Você promete que fala a verdade?
- Claro, Caio. O que você quer saber?
- O que eu vou te perguntar é sério, muito sério.
- Assim você está me deixando curioso – ele abriu aquele sorriso lindo.
Será que o Rodrigo estava mesmo a fim de mim? Se isso fosse verdade, aquele era o momento de saber...
- Rodrigo, você ficaria com um menino???
- Por que você está me fazendo essa pergunta?
- Porque sim... Seja sincero: sim ou não?
Ele ficou calado e desviou os olhos de mim. O garoto abriu a porta do armário, tirou uma camiseta vermelha e um jeans preto e começou a se vestir.
- Eu estou esperando uma resposta.
- Quero saber por qual motivo você fez essa pergunta.
- Quer saber a verdade? – passei perfume pelo corpo todo.
- Lógico que sim, né?
- Nem eu mesmo sei porque te perguntei isso... Só preciso saber se sim ou se não.
Nós dois continuamos fazendo o que tínhamos que fazer e eu fiquei no aguardo de um posicionamento, mas ele não aconteceu de imediato.
- Vamos pra faculdade? – ele desconversou.
- Nâo – eu me aproximei e segurei na mão dele. – Olha pra mim, Digow...
Ele me olhou, todo sem jeito. Dava pra notar o quanto ele estava envergonhado naquele momento.
- Olha nos meus oihos e diz se você ficaria comigo ou não. Eu quero uma resposta sincera da sua parte e quero agora!
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