domingo, 8 de março de 2015

Capítulo 15


E
nquanto ele não abriu a boca pra contar o que tinha acontecido, eu fiquei olhando o mar vindo ao encontro da areia. Isso me deixou calmo, embora estivesse em uma situação tensa.

Resultado de imagem para praia noite

Eu fechei os olhos e senti o cheiro da maresia invadir o meu nariz. Ao mesmo tempo fiquei ouvindo o barulho das ondas e me senti quase que literalmente em transe.
- Caio é melhor a gente sair daqui – a voz do Bruno invadiu os meus tímpanos e eu abri os olhos imediatamente.
- Daqui eu não saio – fui categórico. – Se você quiser falar comigo é aqui que a gente vai conversar e ponto final.
- Eu estou falando sério! Está vendo aqueles dois carinhas ali? – ele apontou para dois marmanjos com o queixo e eu olhei para os indivíduos.
- O que é que tem?
- Eles não me parecem boa gente. Algo me diz que aqui não é seguro. De verdade.
- Ah, pelo amor. Isso é desculpa para você me tirar daqui, mas daqui eu não saio, entendeu?
Bruno ficou calado e não tirou os olhos dos caras um segundo sequer. Eles estavam razoavelmente perto da gente e não paravam de olhar para um grupo de três jovens que estava tirando fotos na beira do mar.
- É sério, Caio... Vamos sair daqui!
- Não, Bruno. Daqui eu não saio!
Mas de repente, os dois caras se levantaram e muito aos poucos foram se aproximando das jovens e em questão de segundos o assalto aconteceu.
Eu fiquei boquiaberto quando vi que um deles tirou uma arma de não sei aonde e apontou para as meninas. O Bruno tinha razão.

Resultado de imagem para bandidos

- Vamos embora – ele sibilou e me puxou pelo braço. Nessa altura eu já tinha me levantado e ele também.
Bruno e eu não saímos correndo, mas também não ficamos dando sopa na praia. Ele me conduziu até o calçadão, nós atravessamos a rua e nos infiltramos pelo meio do bairro. Eu estava com o meu coração a mil por hora.

Resultado de imagem para correr rua

Em nenhum momento ouvi barulho de tiros, mas mesmo assim eu fiquei muitíssimo assustado. Me lembrei do dia em que a Dona Elvira me mandou na Lotérica e a mesma fora assaltada. Desde então eu nunca mais tinha presenciado uma cena daquelas.
- Melhor a gente ir pro meu apartamento – ele falou.
- Não. Eu não quero ir pra lá!
- Caio, é sério! A gente não sabe o que vai acontecer com esses caras soltos na região... Vamos pro meu apê, lá a gente vai poder conversar melhor...
Eu não sabia se aquele convite era sincero ou se ele tinha alguma segunda intenção comigo, mas eu não podia negar que estava com medo de ficar naquela região. Só por esse e nenhum outro motivo, eu aceitei o convite:

Resultado de imagem para marcos pigossi rua

- Então vamos, mas me prometa que a gente só vai conversar!
- É claro que eu te prometo. Vem comigo, não é muito longe daqui.
Segui o garoto, mas me arrependi. Ele disse que não era longe, porém nós andamos por mais de 15 minutos.
- Esse é o meu condomínio – meu ex abriu um portãozinho branco e fez sinal para eu entrar. – Entra.
Não era um condomínio 5 estrelas, mas era fato que ele não estava morando em um bairro qualquer do Rio de Janeiro. O Recreio era lindo e eu fiquei me perguntando como ele conseguiu aquele apartamento.

Resultado de imagem para condominio recreio

Nós entramos no prédio, ele cumprimentou o porteiro e em seguida nós fomos até o elevador.
Bruno apertou o botão e as portas do elevador abriram imediatamente. Eu entrei primeiro e percebi que ele apertou o botão do 6º andar. Eu suspirei e olhei para tudo que foi canto, menos pro Bruno.
Quando o elevador parou, ele foi o primeiro a sair e eu o segui de perto. Havia 4 apartamentos no andar e o dele era o que ficava mais ao fundo, o de número 23.
Bruno girou a chave na fechadura, suspirou, me olhou e disse:

Resultado de imagem para girar chave porta

- Pode entrar, Caio.
- Com licença – falei, mas sem olhar pra ele.
- Não repara a bagunça.
Não estava bagunçado, ao contrário: a sala estava muitíssimo arrumada. Era um imóvel pequeno e muito, muito organizado.

Resultado de imagem para sala estar

As paredes eram nudes e cheia de quadros de paisagens. Havia uma cozinha muito pequena ao lado da sala. Esta era composta por um conjunto de módulos de couro preto, uma estante com uma televisão de tela plana, um DVD, vários livros, CDs, DVDs, bibelôs, um som e no centro tinha uma mesinha na mesma cor da estante com um vaso tulipas em cima.
A cozinha era revestida por um armário não muito grande na cor branco e preto, uma mesa com 2 cadeiras, um fogão, um refrigerador e a pia.
Eu fiquei surpreso. Nunca imaginei que ele estivesse morando naquelas condições. Confesso que a minha curiosidade aumentou e muito para saber como aquele garoto tinha conseguido tudo aquilo.

Resultado de imagem para sofa de couro

- Senta, fica à vontade – ele falou. – Você quer beber alguma coisa?
- Não. Obrigado.
- Senta aí, Caio – ele repetiu e estendeu o braço pro sofá.
Eu obedeci e percebi que os módulos eram extremamente confortáveis. Eu fiquei até com vontade de deitar!
- Tem certeza que você não quer beber nada? Comer alguma coisa?
- Não, eu não quero – balancei a cabeça e cruzei as pernas na forma masculina. – Só quero que você vá direto ao ponto, antes que eu me arrependa e vá embora.
Bruno suspirou e sentou ao meu lado. Ele ficou com o corpo perto demais do meu e isso me deixou irritado. Eu dei um passo pra direita e quase caí no chão porque estava na ponta do sofá.
Bruno suspirou de novo, ficou calado mais um tempo e depois começou a falar:
- Eu já te contei que sou adotado, né?
- Contou. Embora eu não tenha acreditado muito nisso.
- Mas é verdade. Só pra refrescar a sua memória: eu fui criado pelo meu irmão, sou filho do cara que eu pensava ser meu avô e desde que descobri isso a minha vida virou um inferno.
- Uhum – eu não estava olhando pro Bruno, estava olhando pro meu tênis.

Resultado de imagem para olhar para os pes

- Eu não tive uma adolescência muito fácil, Caio.
O que isso tinha a ver com a história?
- Com 10 anos de idade aconteceu algo comigo que mudou a minha vida pra sempre.
Será que era sobre isso que o Murilo tinha se referido?
- E desde então a minha vida nunca mais foi a mesma. Eu me descobri gay nessa idade...
Eu também. Eu também tinha me descoberto mais ou menos nessa idade.
- No começo eu não aceitei, é claro, mas com o tempo eu deixei as coisas acontecerem naturalmente. Depois de muito tratamento psicológico.
- Desculpa, mas o que isso tem a ver comigo?
- Eu preciso te contar tudo pra você entender o que aconteceu.
- Se puder ser rápido eu te agradeço, não tenho todo o tempo do mundo pra falar com você.
- Eu não quis esconder de ninguém. Eu não queria ser um esteriótipo, eu não queria viver em um mundo de farsa, em um mundo de mentiras; por isso eu contei pra minha família que sou gay e aí começou o meu inferno de verdade.
Com isso eu me identifiquei.
- Algumas pessoas aceitaram e outras não. Uma das que não me aceitou foi meu pai. Ele não aceitava de jeito nenhum.
Como eu me identifiquei com isso...
- E então começaram os relacionamentos. Eu nunca dei sorte com relacionamentos. Meus namorados sempre me traíam, mentiam pra mim...
Como se ele não fizesse isso com os namorados dele, né? Pelo menos comigo ele fez as duas coisas!
- Só aparecia tranqueira na minha vida, mas aí apareceu você!
Suspirei e fechei os meus olhos. Um filme começou a rodar na minha cabeça.
- A gente se conheceu, criou proximidade e rolou o namoro... Foi a melhor época da minha vida, embora você não acredite.
- Não eu não acredito – confirmei a suspeita dele.
- Enfim... Eu nunca neguei pra ninguém que era apaixonado por você, nunca! Meu pai ficou sabendo do nosso namoro e ele se transformou num monstro. Um verdadeiro monstro!
O pai dele não poderia ter sido mais monstro que o meu, de jeito nenhum!
- Ele me ofendia, me xingava, chegou a me dar uns tapas na cara... Me ameaçou jogar pra fora de casa...
- Mas por que? Só por causa do nosso namoro? – nesse momento eu olhei pra ele.
- Sim. Só porque eu estava feliz. Só porque eu estava mais uma vez apaixonado e porque eu não escondia isso de ninguém. Ele queria que eu fosse discreto, ele queria que eu não ficasse falando isso pra ninguém.
- Ah, conta outra... – comecei a desacreditar do assunto.
- É verdade. Tudo o que eu estou falando é a mais pura verdade!
Voltei a fitar o meu tênis. O meu estômago estava embrulhado, a minha cabeça estava zumbindo e eu estava com as mãos geladas e suadas.
- Daí as coisas foram piorando muito. Ele não media esforços pra acabar comigo. Me ofendeu muito... Muito mesmo... E isso me deixava tão triste, sabe?
- Uhum – eu entendia isso perfeitamente.
- Você era meu porto seguro, Caio. Quando a gente estava junto, eu esquecia de tudo e só pensava em você. Pensar em você me dava forças pra enfrentar a realidade, me dava forças pra enfrentar aqueles xingamentos, aquelas ofensas, aquelas ameaças...
Senti um nó na garganta e fechei os meus olhos. Eu não queria chorar.
- E assim eu fui levando a vida. Meu pai já não me dava mais nada há muito tempo. Ele cortou tudo o que era meu e por isso eu fui obrigado a começar a trabalhar. Lembra que eu te contei isso?
- Sim – a minha voz estava embargada.
- E até que eu estava conseguindo me mantar com o trabalho do Call Center. É claro que eu não tinha uma vida de rei, mas eu conseguia me manter. Apesar de tudo eu estava feliz porque eu estava com você.
- Sei.
- Mas em um certo dia, eu cheguei em casa e dei de cara com o Márcio.
- Quem é Márcio?
- Ele é meu irmão também. Eu passei a vida pensando que ele era meu tio, irmão daquele que eu jurava ser meu pai, mas ele é meu irmão.
- E o que tem isso?
- Tem que foi ele que acabou com a minha adolescência – nesse momento foi a voz do Bruno que embargou. – Eu descobri que ele ia morar na minha casa, ia morar com a gente e que o Luciano tinha feito isso só pra me atingir, só pra me abalar porque ele sabia que eu odiava o Márcio com todas as minhas forças.
- Não entendi?
- O Márcio fez algo que me marcou pra sempre, Caio.
- O que ele fez?
Bruno ficou calado e suspirou duas ou três vezes.
- Eu... Eu prefiro... Não falar o que ele fez...
Se ele ia contar a história pela metade era melhor nem ter aberto a boca!
- Daí... Daí o meu pai... O Luciano... Disse que o Márcio ia morar lá com a gente...
Ele parecia bem nervoso nesse momento. O menino estava até eufórico



Tú llegaste a mi vida para enseñarme
Tú supiste encenderme y luego apagarme
Tú te hiciste indispensable para mi
Y con los ojos cerrados te seguí
Si yo busqué dolor lo conseguí
no eres la persona que pensé, / que creí, / que pedí
Mientes,
Me haces daño y luego te arrepientes
Ya no tiene caso que lo intentes
No me quedan ganas de sentir
Llegas cuando estoy a punto de olvidarte
Busca tu camino en otra parte
Mientras busco el tiempo que perdí
Que hoy estoy mejor sin ti...
Voy de nuevo recordando lo que soy
Sabiendo lo que das y lo que doy
En mí no queda espacio para ti
Y el tiempo hizo lo suyo y comprendí
Las cosas no suceden porque sí
No eres la persona que pensé, que creí, que pedí...
Mientes,
Me haces daño y luego te arrepientes
Ya no tiene caso que lo intentes
No me quedan ganas de sentir
Llegas cuando estoy a punto de olvidarte
Busca tu camino en otra parte
Mientras busco el tiempo que perdí
Que hoy estoy mejor sin ti...
Que hoy estoy mejor sin ti...
Llegas cuando estoy a punto de olvidarte
Busca tu camino en otra parte
Mientras busco el tiempo que perdí
Que hoy estoy mejor sin ti...
Que hoy estoy mejor sin ti...
Que hoy estoy mejor sin ti...



Você chegou em minha vida para me ensinar
Você soube me acender e logo me apagar
Você se fez indispensável para mim

E com olhos fechados te segui
Se eu busquei pela dor o consegui
Você não é a pessoa que pensei, que acreditei, que pedi

Mente,
Me machuca e logo se arrepende
Já nem o porquê tentar
Não tenho vontade de sentir

Chega quando estou a ponto de te esquecer
Busca seu caminho em outra parte
Enquanto busco o tempo que perdi
Porque hoje estou melhor sem você...

Vou de novo recordando o que sou
Sabendo o que você dá e o que dou
Em mim não tem espaço para você

E o tempo fez sua parte e eu compreendi
As coisas não acontecem porque sim
Você não é a pessoa que pensei, que acreditei, que pedi...

Mente,
Me machuca e logo se arrepende
Já nem o porquê tentar
Não tenho vontade de sentir

Chega quando estou a ponto de te esquecer
Busque seu caminho em outro lugar
Enquanto busco o tempo que perdi
Que hoje estou melhor sem você...
Que hoje estou melhor sem você...

Chega quando estou a ponto de te esquecer
Busque seu caminho em outro lugar
Enquanto busco o tempo que perdi
Que hoje estou melhor sem você...
Que hoje estou melhor sem você...
Que hoje estou melhor sem você...
.
- E eu não aceitei... Eu disse que não queria ele na minha casa, não queria ele perto de mim...
- E você não queria pelo que esse Márcio te fez no passado?
- É claro... Ele acabou com a minha vida, é sério...
Se isso fosse verdade, ele deveria ter feito algo muito sério contra o Bruno. Mas o que seria tão sério a ponto dele não querer ver o irmão?
- Mas o Luciano não fez nada... Ele deixou o Márcio lá e só ficava me provocando cada vez mais, até que chegou um dia que ele falou que tinha chamado o meu padrinho pra vir me buscar... Só porque eu continuava com você... Só porque eu não largava a homossexualidade...
Suspirei. Estava chegando no X da questão.
- O meu padrinho mora em Madrid e o Luciano queria que eu fosse morar com ele só pra se livrar de mim...
Não podia ser verdade...
- Eu disse pra ele que não queria ir, que estava feliz aqui no Brasil, que tinha você... Eu disse que poderia morar com a minha avó, com a Dona Terezinha, mas eles não deixaram...
Não falei mais nada e só fiquei ouvindo a ladainha do Bruno.

Resultado de imagem para ouvir

- Eu pedi só um tempo pro meu irmão... Um tempo pra eu conseguir um canto pra ficar, um lugar pra morar, mas quando eu menos esperei o meu padrinho já tinha chegado da Espanha e todas as minhas malas já estavam prontas pra eu sair daqui...
Ou seja, ele quis dizer que foi obrigado a sair do Brasil pelo pai. Eu não acreditei nisso não!
- Eu fiz de tudo... Chorei, gritei, esperineei – Bruno estava chorando nessa altura do campeonato –, mas não adiantou. Eles praticamente me arrastaram até o aeroporto e eu fui obrigado a sair daqui... Eu não queria... Eu não queria te abandonar, não queria!!!
- Se você já acabou eu vou embora – me coloquei de pé.
- Não, espera – ele me puxou e eu caí sentado. – Não vai falar nada?
- E você acha que eu tenho alguma coisa pra falar sobre isso? Você acha mesmo que eu acredito nisso?
- Mas eu... Eu to... Falando a verdade!
- Não acredito! Não acredito em uma vírgula... Ninguém é obrigado a fazer o que não quer, ninguém! Se você disse que não queria ter saído por que saiu? Eu não boto fé no que você me disse!
- Mas Caio... É verdade!
- Ah, conta outra, garoto! Essa foi boa... Você chegou em casa e as malas estavam prontas? Ah, faça-me o favor, né?
- Eu juro.... Eu juro por Deus! Eu estou falando a verdade, Caio... A verdade...
Bruno estava com o rosto todo molhado. Os olhos azuis dele estavam muito brilhantes e a cor estava extremamente acentuada.
- Não acredito – levantei de novo. – Eu não acredito!
- Acredita em mim – ele fungou o nariz. – Eu estou falando a verdade... Eu não queria ter ido pra Espanha...
- Se isso é verdade por que você não me contou isso antes?
- Porque você não deixou! – ele se defendeu.
- Por que não me falou isso na época? Por que não me ligou no dia? Por que não me deixou uma mensagem? Por que não explicou o que estava acontecendo, Bruno? Por que? – foi a minha vez de chorar.
- Porque eu não tive tempo... Eu não tive tempo... Foi tudo rápido demais, rápido demais...
- Ah, pelo amor de Deus! Você quer mesmo que eu acredite nisso, Bruno? – senti vontade de socar a cara dele.
- É a verdade, Caio... É a verdade...
- Você sabe o que eu passei naquele época? Você sabe o que foi passar o meu pós-aniversário de 18 anos CHORANDO? SEU IDIOTA!
- Eu não queria ter ido... Eu não queria – ele começou a soluçar.
- Ah, conta outra porque essa não colou! VOCÊ ACHA QUE EU TENHO CARA DE IDIOTA POR ACASO?
- EU ESTOU FALANDO A VERDADE, CAIO! – Bruno se desesperou. – Acredita em mim, por favor...
- Eu sofri tanto... Eu sofri tanto por sua causa... Eu chorei, eu passei o pior aniversário da minha vida e a culpa É SUA!
- Eu não queria que isso tivesse acontecido, eu juro...
- VOCÊ ACABOU COM A MINHA VIDA! VOCÊ SABE O QUE É ISSO?
- A CULPA NÃO É MINHA – ele estava muito desesperado.
- E É DE QUEM ENTÃO? A CULPA É SUA SIM, GAROTO!
- Eu não queria... Eu não queria...
- Você acabou com o meu aniversário, você acabou com a minha vida! Eu te amava, Bruno... Eu te amava como nunca amei ninguém na minha vida... Eu te amava mais do que tudo, mais do que a mim mesmo...
- Eu também te amava, Caio... Eu te amava muito, muito... Eu ainda te amo... Eu ainda te amo...
- VOCÊ AMA AS SUAS MENTIRAS, BRUNO! VOCÊ NUNCA ME AMOU, NUNCA!
- MENTIIIIIIIIIIIIIIRAAAAAAAAAAAA!!! EU TE AMEI SIM, EU AINDA TE AMO, CAIO!
- CALA A BOCA, INFELIZ! NOJENTO... EU TE ODEIO TANTO... TANTO...
- Acredita em mim... Eu estou falando... A verdade...
Eu andei até a cozinha e fiquei perto de uma janelinha que tinha na parede da pia. O choro tomou conta de mim e eu desmoronei de vez. O meu peito doía tanto que eu cheguei a pensar que seria capaz de segurar a minha dor com a mão. O choro era um misto de ódio, ressentimento e mágoa.
- Eu te amo tanto... – ele falou.
- MENTIROSO! VOCÊ NUNCA ME AMOU – eu fechei os olhos e deixei o choro lavar a minha alma.
- Eu... Te amo... Muito, Caio... Eu estou falando a verdade... Só a verdade... Eu não queria ter saído...
- Você não queria ter saído... – eu dei risada. – MAS SAIU! FOI EMBORA, ME LARGOU FALTANDO UMA SEMANA PROS MEUS 18 ANOS... NÃO ME DEU NOTÍCIA, NÃO ME PROCUROU... NÃO ME FALOU NADA... VOCÊ SIMPLESMENTE PISOU EM MIM, BRUNO! FOI ISSO QUE VOCÊ FEZ!
- EU TE MANDEI NOTÍCIAS SIM! EU TE MANDEI E-MAIL, TE MANDEI DEPOIMENTO, TE CHAMEI MIL VEZES NO MSN, DEIXEI RECADO LÁ TAMBÉM, EU LIGUEI PRO RODRIGO E VOCÊ NUNCA ME DEU ATENÇÃO, NUNCA!
- O QUE VOCÊ QUERIA? QUE EU RESPONDESSE DIZENDO “OI, AMOR”? AH, PUTA QUE PARIU... VOCÊ ACABOU COM OS MEUS SONHOS, COM OS MEUS PLANOS! EU FIQUEI EM DEPRESSÃO POR SUA CAUSA!
- EU TAMBÉM FIQUEI EM DEPRESSÃO, CAIO... EU NÃO QUERIA TER TE LARGADO AQUI, NÃO QUERIA!
Eu senti vontade de sair correndo e estava extremamente abalado com tudo o que estava acontecendo.
- Por favor, Caio... Acredita em mim, por favor...
- Impossível acreditar numa pessoa que mentiu pra mim a vida toda, Bruno.
- Eu... Já te expliquei o que aconteceu... Por favor, me perdoa?
- Perdoar? – eu comecei a dar risada. – Perdoar? Você acha mesmo que eu vou te perdoar? VOCÊ FODEU COM A MINHA VIDA E AGORA VOCÊ QUER QUE EU TE PERDOE?
- Mas eu não fiz por mal... Eu não fiz por mal...
- Eu te amava tanto... Tanto – sequei uma lágrima. – Eu queria tanto ter ficado com você pra sempre, sabe? Você acabou com meus sentimentos, você pisou no meu coração...
- Se você tivesse lido um e-mail que fosse você teria entendido tudo, Caio...
- NÃO SE FALA UMA COISA DESSAS POR E-MAIL! – eu me virei e quase dei um chute na cadeira.
- MAS ERA A MINHA ÚNICA POSSIBILIDADE!
Fiquei calado. Será que ele estava falando a verdade? Ou será que tudo não passava de uma mentira? Mais uma mentira do Bruno?
- Eu quase acabei com a minha vida por sua causa – falei baixinho. – E agora você quer perdão?
- Como? Como assim você quase acabou com a sua vida por minha causa? – ele estava com a voz muito grave.
- É isso que você ouviu – eu sequei outra lágrima. – Eu senti tanta dor na sua partida, mas tanta dor... Que eu cheguei a tentar suicídio!
Bruno ficou calado por um tempo imensurável. Eu queria saber o que ele estava pensando nesse momento.
- Isso... É... Sério?
- E VOCÊ ACHA QUE EU VOU BRINCAR COM UMA COISA DESSAS? – esbravejei e as lágrimas se multiplicaram.
- Me perdoa... – Bruno correu até onde eu estava e segurou na minha cintura. – Me perdoa, amor... Me perdoa, por favor...
- ME SOLTA, INFELIZ! – eu tirei as mãos dele de cima de mim e saí andando, mas ele foi atrás.
- Me perdoa, Caio... – Bruno estava aos prantos. – Me perdoa, pelo amor de Deus... Me dá uma chance...
- Chance? – eu senti minhas entranhas ficarem contraídas. – Chance? Só se for pra você sumir da minha vida!
- Por favor... Eu to te pedindo – ele ajoelhou no chão. – Eu to te suplicando... Me perdoa...
- Não! – fui firme. – Não te perdoo! Abre essa porta que eu quero ir embora!
- Por favor... Por favor... Por tudo o que há de mais sagrado, acredita em mim!
- Não acredito em você. Abre a porra dessa porta que eu quero sair daqui! Eu nunca mais quero te ver na minha frente, nunca mais!
- Por favor, Caio... Eu estou falando a verdade... Eu te amava muito, eu te amo muito... Me desculpa, me perdoa, Caio...
- Não... Não... NÃÃÃÃÃÃÃO – eu senti uma dor enorme na minha alma. – Você acabou com tudo... Você acabou com o amor que eu sentia por você... Eu te odeio, Bruno... EU TE ODEIO!
Nós dois ficamos chorando, cada um em seu devido canto. Eu queria sair correndo daquele apartamento. Queria correr para qualquer lugar que fosse, eu só não poderia ficar ali com ele...
- Me perdoa... – ele choramingou. – Me perdoa...
- Eu não te perdoo nunca... Nunca, tá ouvindo?
Quando nós estamos numa situação dessas, acabamos ficando meio aéreos e lesados. Só depois de tum tempão eu notei que a chave estava na fechadura da porta.
- Me perdoa... – ele ainda estava ajoelhado perto de mim.
- Não quero mais saber de você, Bruno. Cumpra a sua promessa. Você já me contou a sua versão dos fatos, agora me deixa em paz. Me deixa em paz pra sempre.
- Eu te amo tanto – meu ex-namorado continuava chorando.
- Mas eu te odeio! Eu te odeio com todas as minhas forças! Não atrapalha mais a minha vida, entendeu? Eu estava muito bem sem você, seu verme. Por mim você poderia ter apodrecido na Espanha, por mim  seu voo poderia ter caído pra você nunca mais amolar a minha vida! Me deixa em paz, me deixa viver...
Eu acho que peguei pesado demais porque ele ficou ainda mais desesperado e sem saber o que fazer.
- Me perdoa... – Bruno parecia uma vitrola quebrada.
- Eu vou embora – sequei outra lágrima – e nunca mais quero saber de você. Nunca mais... Nunca mais...

Resultado de imagem para abrir a porta

Eu andei até a porta e tentei pensar no que iria fazer quando saísse daquele apartamento. Ainda não tinha nada em mente e como estava em um bairro que eu até então não conhecia, não fazia a menor ideia de como iria fazer para chegar em casa. Onde seria o ponto de ônibus???
Abri a porta e escutei o choro dele invadir a minha mente. Lembrei de todo o meu desespero e a minha vontade era voltar e dar um chute naquele infeliz, mas não fiz isso.
- Não vai embora... – ele me olhava.

Resultado de imagem para olho azul

Parei e nossos olhos se encontraram. Eu tive a sensação de estar sendo esmagado por uma tonelada. Eu me senti achatado, me senti pequeno, me senti moído, quebrado. Meu corpo doía, minha mente doía, meu coração doía, mas nenhum deles doía como doía a minha alma.
Era evidente o sofrimento nos olhos azuis do Bruno. Ele me olhava e eu conseguia enxergar além daqueles olhos. Talvez ele estivesse sofrendo tanto ou mais do que eu, mas como eu era orgulhoso, eu não fui capaz de perdoar.
Perdoar pra quê? Pra ele fazer tudo de novo? Pra ele me largar na primeira oportunidade ou quiçá pra ele me trair novamente?
Por que eu não tinha esquecido da traição com o Léo, muito pelo contrário: isso ainda estava bem fresco na minha memória!
Não eu não ia perdoar. De jeito nenhum e de jeito nenhum mesmo. Perdoar eu não ia e tinha mais: eu queria distância. De verdade!
- Nunca mais... – eu suspirei. – Olhe na minha cara. Infeliz!
Foi muito difícil desgrudar os nossos olhos, mas quando isso aconteceu, eu me virei e tentei sair do apartamento. Confesso que tive um pouco de dificuldade pra fazer isso.
Mas depois de feito, eu bati a porta com toda força que tive e andei até o elevador. Por sorte ele estava parado naquele andar e rapidamente eu consegui sair daquele prédio maldito.
Restava saber onde eu pegava um ônibus para a minha casa. Eu ia ter que perguntar onde ficava o ponto de ônibus e estava torcendo para que não fosse muito longe.
Enquanto eu descia até a rua, a minha cabeça girava com todas aquelas mentiras que eu tinha ouvido do Bruno.
Pra mim era impossível acreditar naquela história que ele me contou. Impossível! Onde é que existe isso? Só se fosse em uma novela das 20 horas da Globo. E olhe lá!
Se bem que, se o meu pai teve a capacidade de me expulsar de casa aos socos e pontapés, o do Bruno poderia muito bem ser capaz de mandá-lo morar na Europa.
O problema não era esse, embora isso também tivesse um peso significativo na minha dor. O problema em si era o fato dele ter saído sem me comunicar nada.
Eu não podia acreditar que ele “não teve tempo” pra me falar nada. Isso era mentira. Quando a gente quer, a gente arruma tempo pra tudo, absolutamente tudo.
Se ele não me avisou nada foi porque não quis fazer isso. E se ele não quis fazer isso foi por puro egoísmo.
Fiquei tão entretido nos pensamentos que nem sequer percebi que já estava na avenida. É claro que eu soube chegar lá, mas só me dei conta de onde estava depois de um tempo. Os pensamentos foram capazes de tomar conta da minha mente por completo.
- Onde eu pego um ônibus pro Realengo? – perguntei para um cara que andava na calçada.
- Não sei. Eu não sou daqui.
Continuei andando e nem agradeci. Olhei para um lado, olhei para o outro e fiquei perdido. Por onde ir? Que caminho seguir?
Resolvi continuar andando, mas não encontrei nenhum ponto e isso me deixou bem irritado. Que avenida era aquela que não tinha ponto de ônibus?
Foi quando eu avistei um táxi vindo na minha direção. Quando o veículo se aproximou o suficiente para eu perceber que não tinha ninguém em seu interior, eu estendi a mão e o carro parou.

Resultado de imagem para taxi

- Quanto é daqui até o Realengo?
- Te faço por R$ 20,00 porque eu moro lá e já estou indo embora mesmo.
- Pô, valeu!
Não pensei duas vezes e entrei logo no banco da frente. Coloquei o cinto e voltei a pensar no Bruno.
Por que ele mentia tanto pra mim? Por que não falava logo a verdade? Por que não disse que foi embora porque quis? Precisava mentir? Precisava inventar tudo aquilo?
Minha cabeça rodou, rodou, rodou e eu fiquei sem saber o que fazer. Peguei meu celular, olhei a hora e em seguida suspirei.
Eu precisava do Rodrigo. Precisava de um abraço do meu irmão, precisava de carinho, de cafuné... E eu tinha certeza que ele não ia me negar absolutamente nada!
Olhei pela janela e me deparei com um bairro desconhecido. Será que a gente ainda estava no tal do Recreio???
Pensei muito no Bruno, muito mesmo. A minha sorte foi o choro ter cessado. Eu não queria chorar na frente daquele taxista desconhecido. O que ele ia pensar de mim?
Quando já fazia mais ou menos 15 minutos que eu estava no táxi, o meu celular começou a tocar. Quando eu peguei o aparelho e vi o nome do Murilo, enxerguei automaticamente uma luz no fundo do túnel.
- Alô? – eu atendi com um suspiro.
- Está podendo falar?
- Uhum.
- Queria saber se quer sair comigo no outro domingo? É que se você não quiser eu vou fechar com meus amigos.
- Quero sim. Eu tenho uma coisa pra te falar...
- O que foi?
- Eu aceito o seu pedido de namoro!


Nenhum comentário: