terça-feira, 24 de março de 2015

Capítulo 51

- A
manhã sim senhor!
- Tão rápido assim? – eu choraminguei.
- Sim senhor. Da mesma forma que a Jana, você ficará 30 dias numa espécie de treinamento. À partir de amanhã eu vou te passar toda a rotina da gerência.

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- E quem vai ser meu companheiro?
- A Nataly.
Nataly era uma das meninas do crediário. Fiquei curioso para entender qual o motivo da escolha dela, mas não fiz nenhum questionamento. A Nataly era uma das funcionárias mais bonitas que tinha na loja.
- Então tá, né? Eu vou precisar vir de social?
- Só quando eu me ausentar. Até lá você pode vir normal mesmo.
- Como você quiser, chefinho. Obrigado pela confiança e pelo incentivo.
- Disponha. Agora vai lá vender seus móveis e eu não quero saber de corpo mole só porque hoje é seu aniversário, hein?
- E eu já fiz corpo mole alguma vez? Não responda.
Dei risada, ele também e em seguida eu saí andando. O jeito era me preparar, infelizmente não ia ter como escapar desses 30 dias na gerência da loja.
- E aí, gostou do presente?
- Jana, ainda não abri... Desculpa.
- Relaxa. Em casa você abre. E aí, o que o Jonas queria?
- Me falar que à partir de amanhã eu fico em treinamento pra cobrir as férias dele.
- Toma – ela começou a rir. – Bem feito. Eu acho é pouco!!!
- Muy amiga você, em Jana?
- Agora você vai ver a porca torcer o rabo e eu vou te pedir várias coisas só pra te deixar louquinho, do mesmo jeito que você fazia comigo. Eu acho é pouco!!!
- Obrigado, obrigado. Eu vou me lembrar disso um dia.

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E assim o dia foi passando. Coincidentemente ou não, naquele 31 de agosto o movimento no meu setor caiu bastante e isso me deixou ter alguns momentos de tranquilidade para descansar.
- Que moleza é essa? – a mamãe Eduarda foi se despedir de mim.
- Minha filha, Deus é maravilhoso. Isso daqui está às moscas hoje. Logo hoje!
- Sorte sua. Aproveita, bobo.
- Ah, obrigado pelo incentivo.
- Vou embora viu?
- Cedo assim?
- Hoje tenho um ultrassom pra fazer. Quero ver se descubro o sexo do bebê.
- Já? Não é cedo demais?
- Não sei. As coisas estão tão modernas hoje em dia que acho que até com 1 dia de gravidez dá pra saber o sexo. Quem sabe?
- Seja o que Deus quiser, não é?
- Com certeza. Beijo, querido. Feliz aniversário novamente.
- Obrigado, Duda. Bom exame.
- Obrigada!
Durante todo o decorrer daquela segunda-feira o meu celular vibrou, mas em nenhum momento eu pude ver as mensagens que estava recebendo.
Isso só foi possível na hora do almoço e eu me espantei com a quantidade de SMSs que o Bruno havia me mandado: 37.

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Li uma por uma e fui respondendo aos poucos. Quando respondi a última, não me dei por satisfeito e fiz questão de ligar para agradecer. Ele atendeu de pronto:
- Parabéns, anjo!
- Obrigado, seu lindo. Obrigado pelas 37 mensagens, foram todas muito lindas.
- Eu vi que você foi respondendo...
- Uhum, respondi todas.
- Ainda não li, vou entrar no metrô agora.
- Ah, então deixa eu desligar...
- Não, não. Pode falar, anjo. Acho que a ligação não vai cair não.
- Ah, então tá bom. E aí, como está sendo seu dia?
- Puxado e o seu? Ganhou muitos presentes?
- Minha amiga me deu alguma coisa, mas eu ainda não sei o que é. O dia está sendo light, quase não tem movimento na loja hoje.
- Que bom, bebê. Pelo menos assim você descansa um pouco.
- Verdade.
- Espera aí, amor. Não desliga não.

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Bruno começou a falar com os passageiros e eu fiquei todo bobo. Que bonitinho ele trabalhando...
- Próxima Estação: Cantagalo.
- Que liiiiiiiiiiiiindo – eu dei risada sozinho.
- Pronto, príncipe. Já podemos falar. Desculpa a demora.
- Ai que liiiiiiiiiiiindo você falando com o povo...
- Você ouviu, é? – ele deu risada.
- Ouvi...
- Ai que vergonha!
- Muito lindo, muito lindo! Quero pegar o metrô com você de novo!
- De novo? Como assim de novo?
- Eu peguei com você um dia, já faz um tempo. Foi no mesmo dia em que eu ouvi você falando com o Vítor no banheiro do shopping!
- Jura? Que horas isso?
- Ah, era tardão da noite já.
- Caraca! Se eu soubesse que você estava no metrô, eu teria feito uma declaração e teria falado que te amo!
- Bobo – eu fiquei todo feliz.
- Ah, se eu soubesse!
- É verdade. eu reconheci a sua voz! Tão lindo... Qualquer dia eu vou pegar de novo!
- É só você vir, já disse isso.
- Eu tenho certeza que eu já peguei, mas quero pegar de novo, só pra ouvir você falando as estações!
- Vou morrer de vergonha, mas eu deixo você vir.
- Bobo e lindo, lindo, lindo!!!
Infelizmente nós não pudemos falar por muito mais tempo. Como ele estava debaixo da terra, a ligação começou a falhar e teve uma hora que não deu mais pra conversar, o que me deixou tristinho, mas eu sabia que ele tinha que trabalhar e por isso não insisti mais e só voltei a falar com o meu namorado naquele mesmo dia à noite.

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Quando cheguei em casa, os moleques da república partiram logo pra cima de mim:
- Feliz aniversário – Fabrício me abraçou. – Aproveita bem aí que essa é uma das melhores fases que existe na vida.
- Obrigado, mano.
- Saudade dos meus 21 – ele suspirou.
- Nem me fala, nem me fala – Vinícius concordou. – Só de pensar que eu já estou chegando aos 30...
Eles iam completar 29 anos em janeiro e dos 21 pros 29 era uma diferença considerável. De fato, Vinícius e Fabrício se encontravam em outra fase da vida. Eram amadurecidos e sabiam fazer as escolhas com mais facilidade. Eu ainda era um jovem meio irresponsável, que ainda ia aprender muito com meus erros e com as lições da vida.
- Parabéns – Vinícius também me abraçou. – Deus te abençoe sempre.
- Valeu, Dr. Vinícius Meirelles.
Maicon, Miguel e Éverton também me felicitaram, mas eu só ganhei presente do Vini e do Fabrício naquele ano. Não me importei com isso.
O oncologista me deu um conjunto de canetas e o engenheiro químico me deu um chaveiro do Cristo Redentor. Amei as duas lembrancinhas, mas eles não precisavam se preocupar com isso.
Depois do banho, fui direto pro notebook e foi lá que eu me encontrei com o Bruno e também com alguns amigos de São Paulo. Um deles foi o Víctor.
Meu melhor amigo paulistano mandou uma solicitação de vídeo, mas eu não aceitei. Eu aceitei a do Bruno, é claro.
Isso gerou um conflito com o Víctor, ele ficou irritado, mas eu não dei bola.

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- Oi... – Bruno falou um “oi” tão tímido que me deixou todo apaixonadinho.
- Oi! – retribuí na mesma moeda.
- Tem gente aí?
- Uhum.
- Só pra saber... Parabéns de novo...
- Obrigado...
Ouvi o Rodrigo bufar, mas não dei bola pra isso também. O importante era falar com o meu namorado e não ser incomodado por ninguém.
- Viu que postei a nossa foto?
- Não – confessei. – Vou ver...
Abri o perfil do meu namorado e notei várias mudanças em seu profile. Uma delas foi o relacionamento de “solteiro” para “namorando”. O meu nem precisou ser alterado, porque eu já estava com “namorando” há um tempão por causa do Murilo. Só mudei a foto do perfil e algumas informações do meu “quem sou eu”.
Adorei a foto. Ficou lindíssima e é claro que eu fiz questão de colocar no meu perfil também.
Criei um álbum com o título “Nós” e postei a foto. Eu não tinha porque esconder a minha homossexualidade de mais ninguém. Os únicos que não sabiam eram o Éverton e o Maicon e mais cedo ou mais tarde eles iam acabar descobrindo, então nem me incomodei com mais nada.
Meus amigos de Sampa já sabiam da minha opção sexual por conta do escândalo que o Cauã promoveu na escola na época que eu fui expulso de casa, então com eles também não teria o menor problema e não teria nada a ser escondido.

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Eu queria mesmo era escancarar pra quem quer que fosse a minha felicidade. Eu tinha mais do que certeza que aquele álbum seria motivo de críticas por parte de algumas pessoas, mas eu nem liguei. A vida era minha e eu ia fazer com ela o que eu quisesse.
- Vê meu perfil, Bruno – falei.
Fiquei olhando o rostinho dele e percebi que de repente ele abriu um sorriso lindo.
- Gostei!
A gente evitou falar muito por causa dos meus amigos, mas a minha vontade era de tagarelar com ele até o dia amanhecer. Pena que isso não foi possível.
E cerca de 10 minutos depois, a foto já tinha vários comentários. O primeiro era do Víctor me parabenizando pela relação e outros eram de amigos de São Paulo, mas nenhum valeu a pena. Apaguei quase todos.
- Viu os comentários? – ele perguntou.
- Já apaguei quase todos.
- Uhum.
Só falamos por mais uns minutinhos e desligamos. Tanto ele, quanto eu precisávamos descansar porque no dia seguinte seria mais um dia de lutas e pra mim não seria nada fácil. Pelo menos era isso o que eu achava.

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E eu achei certo. Quando coloquei meus pés na loja, já notei vários olhares atravessados pra cima de mim e automaticamente fiquei me sentindo muito mal.
- Esse era um dos motivos pelos quais eu não queria fazer isso – comentei com a Janaína.
- Gato, entende uma coisa: eles vão te odiar, mas se o Jonas confiou em você, é nisso que você tem que se apegar. Deixa a inveja deles pra lá e faça apenas o seu trabalho.
Uma das pessoas que me olhava com cara feia era o Kléber. Eu fiquei tão incomodado que fui logo tirando satisfação:
- Que cara é essa pra cima de mim? O que eu te fiz?
- Nada, chefe – ele respondeu.
- Chefe não. Eu não sou seu chefe!
- Mas vai ser mês que vem, não é?
- Não, não vou. Eu não vou assumir a gerência e você sabe muito bem disso, Kléber.
- Não vai agora, mas eu sei que mais pra frente isso vai acontecer.
- Não, não vai. Não quero que você fique me olhando com cara feia!
- Pois essa é a única cara que eu tenho. Por que você não vai pro seu treinamento com o Jonas? Eu preciso trabalhar. Boa tarde, chefe!
Que ridículo! Eu poderia esperar inveja de qualquer um, menos do Kléber. Eu fiquei com o garoto atravessado na minha garganta e pela primeira vez cheguei a pensar que a Do Carmo estava se referindo à ele na consulta que eu fiz com ela.
E a primeira lição que eu tive com o Jonas naquela tarde de terça-feira foi justamente a mais importante de todas: não ligar para a opinião e pra inveja dos meus colegas de trabalho.
- Eles vão achar ruim, eles vão reclamar, vão invejar, vão se sentir menosprezados, vão achar vocês puxa saco, mas vocês não podem ligar. Se eu chamei vocês dois, é porque confio no trabalho de vocês, é porque vocês fizeram por onde e se eu não chamei os outros, é porque não enxerguei potencial neles. Então, se eles vieram com graça, direcionem até mim, por favor. Entenderam?
- Sim – Nataly e eu respondemos em uníssono.

SÁBADO, 5 DE SETEMBRO DE 2.009

Eu passei a semana toda falando pros meus amigos que meu aniversário era no sábado, 6 de setembro. Mais uma vez fiquei perdido no tempo e mais uma vez o Vinícius me deu bronca por causa disso:
- Já disse que você precisa tirar uns dias de folga!
- Não posso parar de trabalhar.
- Só precisa tirar folga, Caio. Um dia só pra descansar e esquecer da loja, esquecer da faculdade e esquecer até do Bruno se preciso for. Você está muito aéreo ultimamente.
- Eu só troquei uma data, Vini. Só isso.
- Com 21 anos isso pra mim não é normal, na boa. Se você tivesse acima de 60, até ia entender, mas na flor da idade? Isso é cansaço, “mermão”.
- Não estou cansado, Vini!
- Sua mente está. É só um conselho, você atende se quiser. Eu vou me arrumar senão a gente vai se atrasar. Pense nisso.
Somente um amigo como o gostoso do Dr. Meirelles pra se preocupar tanto comigo. Ele nem parecia um amigo, parecia até o meu pai. Ele me aconselhava, me ajudava, me colocava pra cima e puxava a minha orelha quando necessário. Poderia ser melhor que isso? A resposta é não.

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Os caras e eu chegamos na pizzaria por volta das 22 horas e fomos os primeiros a chegar. Havia uma mesa reservada no fundo do estabelecimento e esta era simplesmente enorme.
Eu convidei a Janaína juntamente com o peguete, a Alexia e o Diego, o Rodrigo e a peguete da faculdade, Vinícius e Bruna. Fabrício, Éverton, Maicon, Miguel, Kléber, Bruno e Vítor. Comigo eram 16 pessoas. Um número considerável se for analisar bem. E foram todos.
Foi a maior algazarra, mas foi muito divertido. Bruno e eu não paramos de rir um segundo sequer, porque o Vítor não parava de fazer gracinha. Pelo menos naquele dia ele estava menos chato e mais agradável.
- Quer dizer que esse é o famoso Bruno? – Fabrício perguntou.
- Famoso? – meu namorado ficou sem graça.
- A gente ouve falar muito de você, viu?
- Ah, é?
- Uhum.
- Ah, que bom. Espero que bem...
- Muito bem, palhaço – eu dei um peteleco na orelha dele.
Meu namorado só sorriu e ficou sem graça. Até parece que eu ia falar mal dele. Nunca mais eu ia fazer aquilo.
Foi uma festa morna, mas agradável. Não cantamos parabéns, mas comemos bolo e eu me empanturrei de pizzas. Na segunda-feira eu ia ter que correr atrás do prejuízo na academia.
- Quantos pedaços você comeu, Jana? – indaguei.
- Oi? Que horas são? Quase meia noite, pivete.
- Eu não perguntei as horas, perguntei quantos pedaços de pizza você comeu!
- Então, bofe – ela se dirigiu ao ficante e me deixou falando sozinha. – O que vamos fazer agora?
- JANAÍNA – eu puxei o cabelo dela. – Sua mal-educada! Está me deixando falar sozinho!
- É que ela não quer falar que comeu 22 pedaços de pizza – Alexia gargalhou.
- Escuta aqui, sua branquela fedida – ela esbravejou. – Quem te disse que eu comi tudo isso? Eu só comi 5 pedaços!
- 5 a cada 10 minutos – Alexia continuou rindo. – Fala a verdade, sua negra piolhenta! Eu contei quantos pedaços você comeu e foram 22!
Pronto. A algazarra estava feita. Janaína puxou a Alexia e fingiu que ia esfregar a cara dela na calçada. O Bruno quase fez xixi de tanto que ele deu risada.
VÁRIOS DIAS DEPOIS...

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Meu namoro com o Bruno estava indo muito bem, obrigado. A saudade que a gente sentia durante a semana, era plenamente esquecida quando a gente se encontrava e nessas oportunidades, a gente também matava o fogo que um sentia pelo outro.
- Vou gozar, amor – falei.
- Vem, goza na minha boca, safado!
E era assim. Nós não nos dávamos bem somente na cama, mas nela a química era duas vezes mais intensa e nós nos completávamos literalmente falando.
Na loja, o clima ainda era meio pesado, mas algumas pessoas já haviam acostumado com a substituição que eu ia fazer pro Jonas. E aos poucos, as coisas iam voltando ao normal. Menos com o Kléber.
- Eu tenho certeza que é ele que a Do Carmo mencionou nas cartas – comentou Janaína. – Tome cuidado.
- Já estou tomando. Bicha quaquá do caralho...
E quando chegou o final do mês de setembro, eu tive que me preparar psicologicamente para assumir de vez a substituição. No dia que o Jonas saiu de férias, ele reuniu toda a galera e fez o maior discurso:
- Pessoal, como vocês sabem amanhã eu saio de férias e o Caio e a Nataly ficarão no meu lugar.
Várias pessoas me olharam com ar de raiva.
- Sei que muitos de vocês não concordam com a minha escolha, mas se eu escolhi os dois é porque eles são comprometidos e vão tirar o negócio de letra. Eu poderia escolher vários de vocês, mas neste momento são eles que vão ocupar o meu lugar. Isso não é promoção, é só uma substituição. Eles não serão seus superiores, mas eles devem ser respeitados como tal. Vocês ficaram sob a hierarquia da Eduarda, mas podem passar os casos pros meninos que eles vão ajudar da melhor forma possível. Eu não quero ouvir reclamações, eu não quero ouvir piadinhas, eu não quero ouvir fuxicos, nem burburinho a respeito desse assunto. À partir de amanhã eu me ausento, mas o Caio e a Nataly estão orientados a me passar todo e qualquer tipo de preconceito que eles venham a passar com quem quer que seja. Eles vão anotar a situação e vão me encaminhar por e-mail e quando eu retornar, eu vou me entender com a pessoa, entenderam? A Eduarda também está ciente disso e ela vai tomar as ações cabíveis; portanto, respeitem os dois como eles merecem, porque nada impede que no ano que vem seja um de vocês que fique no meu lugar. Compreenderam? Alguma dúvida?
Silêncio.

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- Então eu desejo à todos vocês um bom mês de vendas, continuem fazendo o trabalho de vocês da melhor forma possível e não façam nada contra os meninos. Eles só estão fazendo um favor pra mim e pra Duda e têm o aval do Tácio. Portanto, eles têm que ser respeitados. É isso! Boa noite, galera e até novembro, se Deus quiser.
Suspirei. A sorte estava lançada e eu queria ver como seria aquela substituição.

1º DE OUTUBRO DE 2.009

Eu estava apreensivo. Essa era a palavra certa. Quando eu finalmente me vesti com a roupa social, fiquei arrependido de ter aceito a proposta do Jonas. Algo me dizia que muitas coisas iam sair erradas, mas já estava feito e não tinha como voltar atrás.
A primeira coisa que fiz naquele dia, antes de entrar no trabalho, foi ligar pro Bruno. Eu sabia que ele ia me passar segurança e não estava errado no meu raciocínio:
- Fica calmo, anjo. Vai dar tudo certo, eu tenho certeza disso.
- Eu to apreensivo, com medo...
- Não fique. Se o seu chefe confiou em voce é porque você tem potencial para assumir a função. E eu tenho certeza que você vai ser um excelente gerente nesse mês.
- Será?
- Vai sim. Você só precisa confiar mais em si mesmo. Onde está a sua autoconfiança?
Ele tinha razão. Onde estava a minha autoconfiança?
Entreguei tudo nas mãos de Deus, fiz uma oração rápida e entrei. Acontecesse o que acontecesse, eu daria o meu melhor naquele mês ou não me chamaria Caio Monteiro.
- Nossa Senhora das negras solteiras, me arruma um bofe desses, por favor – Janaína saiu ao meu encontro e me abraçou. – Caio do céu, como você ficou filé com essa roupinha social, hein?
- Quer parar de me constranger?
- Ai, desculpa! Agora você é meu superior...
- Nunca serei. Jamais!
- Jamais é uma palavra forte demais, querido. Menino do céu, como você está bofe. Lindo demais...
- Para, eu estou ficando sem graça já!
- Mas é verdade, meu... Muito lindo! Bruno é um rapaz de sorte, fisgou um pão!
- Eu sabia!!!
- Sabia o quê?
- Que você era da década de 10! Me chamando de pão? Parece até a minha falecida nona!!!
- Escuta aqui, frangote de macumba mal-capado: se tu me chamar de velha de novo eu vou esquentar sua cara na churrasqueira da laje da minha casa, entendeu? Você me respeita, senão eu corto seu fígado e jogo pros cachorros da vizinha!
Dei risada. Ainda bem que ela me fazia rir.

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- Só você pra me fazer rir numa situação dessas.
- Me chama de velha que eu fico puta. Ei, vai ver a Alexia. A barriga dela cresceu mais meio metro de ontem pra hoje, nem sei como isso é possível. Parece que ela tá esperando 15 crianças, nunca vi igual.
- Sangue de Cristo tem poder! Nem que ela fosse uma porca. Como você é exagerada.
Mas ela tinha razão. Parecia mesmo que de uma hora pra outra a barriga da Alexia tinha crescido meio metro.
- Está esperando quantos filhos? 8? – abracei a menina.
- Um só, graças a Deus. Está crescendo tanto assim?
- Eu acho. Eu te daria uns 5 meses de gravidez, na boa.
- Quer parar de ser exagerado, por favor?
- Sabe o que é, Alexia? É que você é magricela, por isso está aparecendo tanto. A Duda é a mesma coisa...
- Vou aceitar a sua explicação, projeto de Jonas. Agora eu iria pro seu novo cargo se fosse você, o Tácio está te olhando.
- Putz... Obrigado pela dica.
Meu regional estava mesmo me encarando. Ele estava sorrindo e parecia super agradável naquela tarde.
- Boa tarde – eu cumprimentei ele e a Duda.
- Boa tarde, Caio – o gerente apertou a minha mão. – E aí, como você está se sentindo?
- Um pouquinho nervoso, mas está tudo bem.
- Que nada, você vai tirar de letra. Tenho certeza disso.
- Ele é excelente, Tácio. Um dos melhores vendedores do setor de móveis.
- Eu sei, Duda. Eu tenho acompanhado de perto o rendimento dele. Está de parabéns, Caio. Tão novinho e tão responsável. O Jonas fez bem em te indicar para esse período. Você será um grande líder um dia.
- Obrigado – fiquei todo sem graça.
Todos falavam aquilo, mas eu não enxergava as coisas desse jeito. Nunca me vi como um líder, mas tudo bem.
Poucos minutos depois a Nataly se aproximou e o Tácio nos passou algumas orientações pertinentes a gerência. Ele disse que haveria reestruturação de funcionários e isso significava que nós teríamos que remanejar as pessoas de lojas e também de setores. Logo no meu primeiro dia no lugar do Jonas eu tive essa bomba pra resolver.
- Meninos, vamos discutir o assunto – Duda puxou a cadeira e sentou. – Vocês ouviram, nós temos que remanejar ainda hoje.
- Posso ligar pro Jonas? – perguntei. – Pra ver se ele quer voltar?
- Muito engraçado, Caio Monteiro – Duda só sorriu. – Não, não pode. A bomba é toda nossa, meu bem. Eu vou pedir pra vocês fazerem as modificações que acham bacana no período tarde, depois eu só vou analisar e vejo se está coerente ou não.

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- Tem que perguntar se eles aceitam, não é? – perguntou Nataly.
- Na verdade não é perguntar, é comunicar – explicou Eduarda. – Eles não têm que querer, eles vão e acabou. A única coisa que vocês vão perguntar é se alguém tem interesse de mudar de loja. Isso sim.
- E como a gente faz isso? – perguntei.
- Convoquem uma reunião rápida. Dividam-se nos setores. Eu faço com os meus e vocês fazem com os da tarde. É assim que a gente trabalha.
- Que horas isso? – perguntou Nataly.
- Agora. Podem fazer já e depois a gente vê as mudanças.
- Beleza – concordei.
Minha parceira e eu conversamos rapidamente sobre o assunto e dividimos o que cada um ia fazer. Eu fiquei responsável pelos móveis, linha branca e som e imagem. Ela ficou com os outros setores.
- Equipe tarde de móveis, venham aqui, por favor – eu os chamei, mas quase ninguém me deu ouvidos.
Todos tinham que me obedecer, menos quem estava em atendimento.
- Equipe tarde, por favor? Eu preciso falar com vocês.
- Diga, Caio – um dos meninos se pronunciou.
- Vou esperar o pessoal chegar...
Quando eles chegaram perto de mim eu comuniquei o que estava acontecendo e somente um quis mudar de filial. Eu anotei o nome, a matrícula e a filial que ele desejava ir e agradeci pela atenção de todos. Bastou me virar para eu ouvir um “tá se achando já”. Fiquei aborrecido.
Meu primeiro dia na gerência foi conturbado. Nataly e eu perdemos boa parte do dia resolvendo a solicitação do Tácio e fazendo a reestruturação do pessoal.
Por incrível que pareça, a Eduarda aceitou as nossas sugestões de alteração. Nós teríamos que alterar simplesmente todos de setor e não foi uma tarefa fácil. O pior de tudo foi comunicar um a um que eles iam mudar de departamento.
Pra isso, nós contamos com a ajuda da Eduarda. Ela ficou do nosso lado enquanto a gente fez as devidas comunicações:
- Kléber a gente te chamou aqui pra te informar que à partir de amanhã você não está mais no setor de móveis – deixei a Nataly assumir a bronca.
- E eu vou pra onde? – ele foi meio arrogante.
- Pra colchões e estofados – anunciei.
- Ah, e é assim que funciona? Vocês simplesmente decidem e não me perguntam se eu quero?
- Neste momento a empresa precisa de você no colchões e estofados, Kléber – Nataly foi firme. – E todos mudarão de setor, não será só você.
- Mas eu não quero ir pra lá, Caio. E aí, como faz?
- Mas você vai – a Eduarda se meteu. – É uma decisão da gerência e já foi repassada pro regional. É uma mudança estratégica, Kléber.
- Quem decidiu isso?
- Nós três em comum acordo, por que? – Eduarda foi definitiva.
- Não por nada. Então eu não tenho direito de escolha, é isso?
- É uma solicitação, Kléber. É necessário que você aprenda a trabalhar com outros produtos, até mesmo pra você desenvolver o seu potencial de vendedor – Eduarda tentou enrolar o menino.
- Como quiserem então. É só isso? Eu posso me retirar?
- Pode sim. Obrigada. Só dá um vistinho onde tem o seu nome, por favor – pediu a gerente.
O moleque rabiscou rapidamente e em seguida saiu. Eu não estava entendendo por qual motivo ele estava sendo tão chato daquele jeito.

Rodrigo e eu estávamos no curso de inglês e eu estava percebendo que o meu amigo não estava muito bem fisicamente falando.
- Você está bem?
- Só meio zonzo. Estou ficando com dor de barriga...
Ele estava meio pálido demais e eu fui ficando preocupado.
- Caio, eu vou ao banheiro. Já volto.
Rodrigo levantou, foi até a professora e saiu da sala quase que correndo. Será que ele estava passando mal?

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- Vamos lá classe, repetindo comigo...
A cada sábado eu gostava menos do inglês. Não sei se era a escola, se era o método de ensino, se era a professora ou se era falta de interesse da minha parte, mas o fato era que eu não estava gostando nadinha daquelas aulas.
Porém, eu sabia que aquele era um mal necessário. Se eu não fizesse inglês, o meu futuro profissional seria limitado e isso eu não queria que acontecesse.
Eu saí da aula e o Rodrigo não voltou. Fui até o banheiro e encontrei com o garoto nos lavatórios. Ele ainda não parecia muito bem de saúde.
- O que você tem? Está muito branco...
- Eu só estou com um mal-estar. Acho que comi algo estragado... Eu vomitei um pouco!
- Quer ir ao médico?
- Não, não precisa. Já vai passar.
- Tem certeza?
- Absoluta.
Mas eu não confiei no Rodrigo. Por sorte, o Bruno estava nos esperando no carro, há poucas quadras dali. Eu ia pedir pro meu namorado levar a gente pro médico. O Rodrigo já tinha passado por uma cirurgia de apêndice, ele não podia brincar com a saúde daquela forma.
- Vem – eu puxei o Digão pela mão. – O Bruno está de carro, ele te leva até o hospital.
- Não precisa...
- Precisa sim!
O gato estava até suando frio, tadinho. Eu fiquei com dó e não queria ver o meu amigo sofrendo. Por isso, ele teria que ir ao médico.
Nós saímos e caminhamos pelas ruas de Ipanema. Eu estava apenas preocupado com o Rodrigo, mas a minha preocupação mudou de foco quando eu entrei na rua onde o carro do Bruno estava estacionado.
No mesmo momento em que nós chegamos na rua, nós ouvimos o barulho de um tiro. De repente, dois caras saíram correndo em nossa direção e eu vi um corpo estatelado no chão, sangrando e provavelmente sem vida.

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 As minhas pernas falharam, minhas mãos suaram frio e eu fiquei sem fôlego. Aquela foi a primeira vez que eu presenciei um ato de violência no Rio de Janeiro e isso me deixou extremamente amedrontado e até com dor de barriga e com vontade de fazer xixi nas calças.

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