terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Capítulo 8

- E
 aí, e aí? – Dona Elvira estava me esperando na calçada. – Me conta, você passou?
- Passei – abri um sorriso enorme.
- Louvado seja Deus – ela me abraçou bem forte. – Eu disse que tudo ia dar certo, não disse?

- Disse sim. Dona Elvira, onde eu posso tirar a minha carteira profissional?
- Ah, é lá no centro da cidade, querido. Se quiser eu te acompanho amanhã.
- Mas e o mercadinho?
- Não tem problema se eu abrir um pouco mais tarde. Fique tranquilo.
- A senhora faria isso mesmo?
- Claro que sim, querido. Precisamos comemorar seu novo emprego. Faço questão de acompanhá-lo e depois iremos almoçar juntos.
- Puxa, a senhora é uma mãe mesmo, viu? – meus olhos ficaram marejados.
- Já disse que em pouco tempo eu já te considerei como um filho. O filho que eu não tive.
- E a senhora está no lugar da minha mãe. Aquela que não quer nem saber de mim, lembra?
- Não fale assim, não fale assim. Um dia vocês vão se entender, você vai ver.
Na manhã seguinte, ela me acompanhou até o lugar onde eu fiz minha carteira profissional e em seguida, me levou até um shopping na Barra da Tijuca para a gente almoçar.

- O que você vai querer? – ela indagou.
Meu estômago estava roncando muito porque, como de costume, eu não tinha jantado na noite anterior.

- Não sei – respondi francamente. – São tantas opções...
- O que acha de uma massa? Uma lasanha ou nhoque?
- Por mim tudo bem – aceitei o convite, já que era ela que ia pagar a conta.
- Então me acompanhe. Vamos fazer os pedidos.
A comida estava tão boa que eu senti vontade de repetir, mas não me atrevi a fazê-lo. Não queria abusar da boa vontade da Dona Elvira, que estava sendo mais que uma mãe pra mim.
- Vamos trabalhar agora, não é? – ela riu.
- Vamos sim, Dona Elvira.
Durante o resto da tarde eu fiquei imaginando como seria o trabalho na nova empresa. Será que eu ia me adaptar? Será que ia gostar? Será que ia me dar bem na função? Pra variar, muitas perguntas rondaram o meu cérebro, mas as respostas nunca conseguia obter.
A ansiedade era tão grande que eu até acordei mais cedo na quarta-feira. Queria levar logo os documentos e assinar o meu contrato. Quanto antes eu começasse a trabalhar, mais cedo eu ia receber.

- Bom dia – disse à recepcionista. – Eu vim assinar o contrato de menor aprendiz.
- Seu nome?
- Caio Monteiro.
- Aguarde um momento, por favor.
- Tudo bem.
A mulher fez uma ligação e digitou alguma coisa no computador. Eu estava apreensivo.
- Trouxe todos os documentos? – a funcionária perguntou.
- Sim.
- Trouxe sim, Mariana. – pausa. – Tudo bem. Obrigada.
Ela desligou e continuou digitando alguma coisa, sem nem olhar pro teclado.
- A moça do recrutamento já vem falar com você. É só aguardar.
- Tudo bem, obrigado.
Sentei em uma poltrona que estava próximo à recepção e depois de alguns minutos, uma moça muito bonita apareceu, chamando pelo meu nome.
- Aqui – dei um pulo do sofá.
- Por favor, me acompanhe – ela solicitou.
Nós pegamos o elevador e ela apertou o botão do 2º andar. Meu coração estava acelerado. Será que eu estava com problema cardíacos? Ou era pura ansiedade?
- Deixa eu te fazer uma pergunta – ela começou. – Você ainda está estudando?
- Sim. 2º ano do ensino médio.
- Qual período?
- Manhã.
- E você não foi hoje?
- Não. Quis trazer os documentos logo – expliquei.
- Não precisava ser necessariamente no período da manhã. O RH funciona até às 6 da tarde.
- Sim eu sei, mas eu quis trazer logo.
- Ah. Pode sentar, já trago o contrato e explico o que vai ser feito de agora em diante.
- Tudo bem.
A garota saiu e demorou mais de meia hora pra voltar. Eu já estava ficando preocupado, além de entediado e também irritado.
- Desculpa a demora – ela disse com o sotaque um pouco forçado. – Aqui está o seu contrato. Leia e assine em todas as folhas, por favor.
- Sim.
Li atentamente o que as cláusulas diziam e por fim, assinei sem maiores transtornos.

- Você pode começar o treinamento amanhã?
- Claro que sim. Que horas?
- Às 2 da tarde. Chegue com meia hora de antecedência para pegar seu crachá na recepção.
- Está bem – abri um sorriso enorme. Eu estava feliz. – Qual vai ser meu horário de trabalho?
- Das 14 às 20. Não tem horário de almoço, só 15 minutos de pausa e você vai trabalhar com cobrança. Como você já sabe, é contrato de menor aprendiz como sendo 1º emprego, portanto, quando voce fizer 18 anos o contrato é encerrado.
- Sim, já me explicaram.
- Quando você completa 18 anos?
- Em agosto.
- Qual dia?
- 31.
- Então seu último dia de trabalho é no dia 30 de agosto de 2.006. Vai receber um salário mínimo, vale-refeição, vale-transporte e depois de 3 meses terá direito ao convênio médico. Como você é menor aprendiz, seu desconto de INSS será de 2% sob seu salário bruto.
- Tudo bem.
- Se puder traga papel e caneta para anotar as informações que serão passadas no treinamento. Alguma dúvida?
- Não.
- Então tudo bem. Aqui está sua carteira de trabalho e os seus documentos. Seja bem-vindo e boa sorte.
- Muito obrigado, moça.
- De nada. Pode ir.
- Sim.
Saí da sala e apertei o botão pra chamar o elevador, que não demorou a abrir as portas. Parecia até mentira que aquilo estava acontecendo. Era bom demais pra ser verdade... Eu finalmente estava empregado e recebendo mais do que eu pudesse imaginar!!! Será que as coisas iam finalmente começar a dar certo na minha vida?
- Eu começo amanhã, Dona Elvira – informei, muito feliz.
- Já? Que bênção, Caio. Graças a Deus!
- É sim, mas eu fico triste de deixar a senhora sozinha.
- Não se preocupe comigo, querido. Preocupe-se com você.
- Obrigado, Dona Elvira. Prometo que virei visitá-la sempre que puder.
- Se você quiser pode continuar trabalhando aqui aos finais de semana. E vai receber a mesma quantia de sempre.
- Jura, Dona Elvira?
- Claro que sim, querido. É sempre um prazer ajudar você.
- Nossa, não sabe como a senhora está me ajudando!!!
- Conte comigo sempre que precisar.
E foi assim que aconteceu. No dia seguinte eu fui à escola e comecei o treinamento no período da tarde e aos finais de semana, eu sempre ia ajudar a Dona Elvira e consecultivamente, conquistar uma graninha extra.
Acabei fazendo amizades na empresa. O treinamento durou 7 dias e foi muito tumultuado, repleto de informações que me deixaram confuso e amedrontado.
No 1º dia na operação, a minha barriga estava tão gelada que parecia até um freezer.
- Não fiquem com medo – disse a instrutora. – Tudo vai dar certo.
Eu nunca tinha visto algo semelhante. Meus olhos se perderam no meio da operação. Eram muitos funcionários e eles não paravam de falar um segundo sequer. Fiquei impressionado com o tamanho daquele lugar.
- Vocês vão ficar com a supervisora Márcia. Ela é um amor de pessoa.
- Que bom – disse uma colega de treinamento.
- Venham comigo.
Nós seguimos a Catarina e atravessamos a Central de Atendimento.
- Boa tarde, Márcia – disse a instrutora. – Trouxe seus novos funcionários.
- Boa tarde, Catarina – elas deram dois beijos no rosto. – Finalmente, estava ansiosa.
- Você pode distribuí-los para a escuta?
- Claro que sim, pode ficar tranquila – a mulher parecia simpática.
- Meninos, ela é a Márcia. À partir desse momento é com ela. Boa sorte à todos!!!
O frio do meu estômago aumentou.
- Vamos lá, pessoal? Vou apresentá-los para a minha equipe.
A supervisora se dirigiu ao meio do corredor e pediu para os operadores solicitarem um momento aos clientes. Quando todos estavam olhando pra ela, a mesma comunicou que nós faríamos parte da equipe e eles nos desejaram boas vindas.

- Estou com medo, Caio – disse Leonardo, outro colega de treinamento.
- Nem me fala, Léo.
- Quem é Caio? – a Márcia gritou.
- Eu – respondi com a voz trêmula.
- Vem comigo, vem comigo – ela começou a empurrar uma cadeira e a deixou parada atrás de uma ruiva. – Senta aí. Essa é a Samanta. Ela vai te explicar o trabalho.
- Tudo bem – acatei a ordem e me sentei.
- Aí, você é efetivo ou é menor? – perguntou a garota que ia me instruir.
- Menor.
Ela revirou os olhos com reprovação e voltou a falar com o seu cliente. Eu tentei não me intimidar e prestei atenção em tudo o que ela estava fazendo.
- Samanta, aqui está o carrapato. Ensina ele direito, hein?
- Pode deixar, Márcia.
Mas ela quase nãoi me ensinou nada. Como eu não queria ser prejudicado, sempre que tinha alguma dúvida eu perguntava, entretanto, a garota era mal-educada e respondia com má-vontade.
- Graças a Deus o dia acabou – Léo parecia mais nervoso do que eu.
- Com quem você ficou?
- Com uma tal de Laís. E você?
- Samanta. Muito mal-educada, não me ensinou quase nada.
- A Laís também não.
- Ela perguntou se eu era efetivo ou menor e quando respondi que era menor ela fez a maior cara de entojo. Não gostei dela.
- Eu também não. Você vai pra casa de ônibus ou de metrô?
- Ah, acho que vou de metrô. É mais rápido. E você?
- Eu também. Nós moramos perto, podemos ir e voltar juntos todos os dias. Se você quiser, é claro.
- Claro que eu quero. Pelo menos a gente pode ir conversando.
- É verdade.

Meu novo amigo era muito legal e também muito bonito. Leonardo também era menor aprendiz, porém todas os outros funcionários que ficaram em nossa turma eram efetivos.
- Por que será que eles não gostam dos menores aprendizes? – ele questionou.
- Não sei. Preconceito isso.
- Verdade.
Eu me identifiquei tanto com o Léo que me abri com ele e descobri que ele também era gay, algo que eu nunca desconfiaria porque ele não demonstrava de jeito nenhum.
- Nunca imaginei que você curtisse também – confessei.
- Sou muito discreto quanto a isso, amigo. Acho que por isso que nós nos identificamos tanto, né?
- É verdade.
- Bom poder compartilhar isso com alguém. Eu me sinto mais leve.
- Sua família te apoia? – eu perguntei.
- Eles não sabem.
- Ah...
- E a sua?
Não sei explicar o motivo, mas bastou pensar na minha família para meus olhos começarem a lacrimejar.
- Eles sabem. É por isso que eu vim morar aqui; eles me expulsaram.
- Sério, amigo? Nossa, que barra, hein?
- Hoje em dia eu já tô meio acostumado, mas no começo foi muito difícil.
- Quanto tempo você está aqui no Rio?
- 4 meses já.
- Ah, sim. Quer dormir na minha casa hoje?
Eu olhei no fundo dos olhos dele e achei aquele convite um pouco estranho e precipitado, todavia, resolvi aceitar.
- Quero.
- Aí a gente pode conversar bastante sobre isso. Amanhã não tem aula mesmo.
- É verdade.
- Já sabe onde vai passar as festas de final de ano?
Pela primeira vez eu percebi que o natal estava chegando.
- Ah, provavelmente sozinho ou com a Dona Elvira.
- Quem é essa?
- É a senhora que me deu emprego quando eu cheguei aqui. Ela é dona de uma vendinha lá no bairro onde eu vivo.
- Se quiser, pode passar o natal lá em casa com a gente.
- Imagina, Léo. Não quero dar trabalho não.
- Que trabalho que nada, vai ser um prazer ter você com a gente.
Senti as minhas bochechas queimarem.
- Até lá eu penso.
- Pensa sim. Você vai gostar. E o ano novo a gente pode passar lá na praia de Copacabana. O maior réveillon do mundo.
- Deve ser bem lindo, né?
- Maravilhoso!!!
- A gente pode passar na hospedaria primeiro? Preciso pegar uma roupa, né?
- Ah, tudo bem. Não tem problema não.
- Mãe, esse é meu amigo, Caio. Ele trabalha comigo.
- Oi, Caio – ela me recebeu com dois beijos no rosto
- Trouxe ele pra dormir aqui hoje.
- Espero não incomodar – disse, timidamente.
- Imagina. É um prazer. Fique à vontade.
- Aquele é meu irmãozinho, Jefferson.
- Que lindinho. Qual a idade dele?
- 1 ano e 2 meses. Tá começando a andar agora.
- São só vocês dois?
- E minha irmã mais velha, mas ela já é casada.
- Ah...
- Vem, vamos pro meu quarto. 

Nós fomos ao quarto do garoto e lá ficamos jogando conversa fora. A mãe dele trouxe um colchão de solteiro pra eu dormir e depois nos deixou a sós pra gente conversar.
- Então seus pais não aceitam?
- Não. Meu pai quase me matou com uma surra.
- Tá brincando?
- Não. Infelizmente é verdade. Foi horrível. Fiquei mais de duas semanas sem sair na rua.
- Como pode, né? Odeio pessoas preconceituosas.
- Eu também.
- Você sente falta deles?
- Não vou negar que sinto, mas sinto mais rancor e raiva do que saudade.
- Imagino. Eles sabem que você está aqui?
- Suponho que não.
- Entendo. Você tem irmãos?
- Só um.
- E ele não te aceitou também?
- Não. O Cauã puxou pro meu pai.
- Que triste. Ele é mais velho ou mais novo?
- Somos gêmeos.
- Jura? Nossa, que legal. Sempre quis ter um irmão gêmeo.
- Não vejo a menor graça. Parecemos um par de vasos siameses, mas ao mesmo tempo totalmente diferentes.
- Vocês não tem nada que os diferencie?
- Por incrível que pareça, não. Nenhuma pinta, nenhuma marca de nascença... Nada.
- Que máximo... Acho isso muito bacana.
- Se nos déssemos bem eu também iria achar, no entanto nos odiamos.
- Nâo fale assim...
- A gente nunca se deu bem, sabe? Sempre tivemos nossas diferenças e nos últimos tempos se complicou muito...
- Que pena. Vamos jantar?
- Ah, nem tô com fome – menti.
- Não precisa ficar sem graça. Pode vir jantar!!!

Nós dorminos só depois das 2 da manhã. Ficamos jogando vídeo-game e mexendo na internet até cansar – o que me deixou muito feliz, porque há muito eu não atualizava minha rede social –. Léo e eu tínhamos muita coisa em comum e realmente nos demos muito bem.
Eu me senti tão bem na casa dele que também dormi lá no sábado. Embora aquilo me desse prejuízo porque eu não estava dormindo na hospedaria do Seu Manollo, eu não me importei. Ficar ao lado de uma pessoa que me entendia e me aceitava era muito melhor do que ficar sozinho. Sem contar que nós tínhamos a mesma idade e compartilhávamos das mesmas ideias e opiniões.
- Me diz uma coisa – ele começou. – Você já transou com algum cara?
Minha pele queimou de maneira uniforme instantaneamente. Eu demorei para responder aquela pergunta.
- Não e você?
- Já.
- Sério? E como é?
- Ah, sei lá. É muito bom.
- Sei lá, tenho meio que medo dessas coisas.
- Você é virgem?
- Uhum – assenti. Estava com muita vergonha.
- Temos que resolver isso então – ele abriu um sorrisinho.
- Hã? Como assim? – achei aquele comentário estranho.
- Precisamos achar um bofe pra você, gato.
- Ah, não... Não quero me meter em confusão não!
- Por que se meteria em confusão? Você vai gostar. Pelo menos você já ficou com algum, né?
- Também não.
- VOCÊ É B.V? – ele se espantou.
- Não – eu dei risada. – Já fiquei com várias meninas.
- Ah, que susto! Não é possível que com 17 anos nunca tenha dado uns beijinhos.
- Não sou tão morto assim, Léo.
- Ainda bem, né? – ele deu risada novamente.
Nossa conversa perdurou por horas. Falamos de tudo: sexo, família, amigos, escola, filmes, bandas e tudo que dizia respeito ao mundo dos adolescentes de nossa idade. Eu já tinha um novo melhor amigo, mas não ia desprezar o Víctor.
- Eu também estou feliz em voltar, Dona Elvira, mas lembre-se que só posso ficar até às 13 horas.
- Não se preocupe.
E aquela foi a minha rotina no mês de dezembro: trabalhei com a Dona Elvira até uma hora da tarde e depois ia pro telemarketing. Aquilo me gerou uma rendinha extra que salvou a minha pele. Pude até me dar ao luxo de comprar um celular!
- Comprou? – Léo indagou.
- Comprei, mas não era o que eu queria.
- E por que não comprou o que você queria?
- Porque era muito caro. Tive que escolher o mais barato mesmo.
- Posso ver?
- Pode sim – tirei meu aparelho do bolso e entreguei ao meu amigo.
- Tem joguinho?
- Tem um de cartas e só.
- Nossa, amigo, que pobreza.
- Fazer o quê???
- Mas pelo menos vamos poder trocar mensagens – ele me devolveu o celular.
- Boa ideia, Léo. Vou mandar uma mensagem pro meu amigo Víctor!!!
- Que amigo é esse?
- Ele é lá de São Paulo. Meu melhor amigo.
- Eu pensei que eu fosse o seu melhor amigo – ele reclamou.
- Você é meu melhor amigo do Rio e ele é meu melhor amigo de São Paulo.
- Não me convenceu – ele reclamou de novo.
- Não seja ciumento, garoto.

Selecionei o menu de mensagem de texto e digitei um texto curto direcionado ao Víctor. Ele não me respondeu de imediato e aquilo me decepcionou.
- Que belo melhor amigo, nem te responde – Léo brincou.
- Ele deve estar sem crédito – deduzi.
- Aham.
E estava mesmo. No fim da noite Víctor me respondeu todo feliz e disse que recarregou o celular só pra falar comigo. Fiquei muito feliz e troquei mensagens de texto com ele durante quase toda a madrugada.
A Missa do Galo na paróquia do Padre João foi extremamente linda. A igreja estava lotada e a cerimônia foi muito bonita. Não consegui conter a emoção.

- Feliz natal, Caio.
- Feliz natal, Dona Elvira.
Nós nos abraçamos bem forte. Eu senti aquele abraço como se fosse o da minha mãe, o que me fez chorar ainda mais.

- Acalme-se, filho. Tudo vai se resolver...
Funguei, mas não tive coragem de responder. Ficar bem? Será que ia mesmo?
- Agora eu preciso ir, querido. Meu voo vai sair daqui há pouco.
- Nossa, vai viajar agora? – achei muito estranho.
- Vou sim. Não queria perder a missa do Padre João.
- Fez muito bem, foi uma missa linda.
- Foi mesmo. Feliz natal e feliz ano novo; só nos veremos ano que vem agora.
- Muito obrigado por toda a ajuda que a senhora me deu durante esse ano, Dona Elvira. A senhora foi um anjo!
- Imagina, filho. Um prazer como sempre.
Me senti um pouco desolado no meio dos parentes do Léo, mas aos poucos eu comecei a me acostumar. A ceia foi um espetáculo. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que eu não comia tão bem como naquela noite. Fiquei muito agradecido por ter sido convidado a participar daquela festança.
Os últimos dias do ano foram os piores desde a minha saída da casa dos meus pais, porque aquela época sempre mexia muito com o meu emocional. Ficar longe deles estava cada vez mais difícil, mas eu tinha que me acostumar, porque eles não iam me aceitar de volta. Daquilo eu tinha certeza.
Eu só não conseguia entender por qual motivo eu estava sentindo tanta falta deles, sendo que eles tinham me feito tão mal e no começo eu não sofria tanto de saudade. Será que a dor estava sendo transmutada em saudade??? Eu era um idiota mesmo... Tinha sofrido horrores e ainda conseguia sentir saudade deles. Como eu era imbecíl!
Embora estivesse me sentindo vazio, não pude deixar de curtir e aproveitar a virada do ano em Copacabana. 2.006 chegou com força total nas areias da praia do Rio. Um verdadeiro show de beleza e emoção. Fiquei simplesmente fascinado com a queima de fogos. Lindo demais. 

- Nada supera isso aqui, Caio – disse Leonardo.
- Agora eu entendo o que você quis dizer – confessei.
- Lindo, não?
- Demais!!!
- Vem, vou te apresentar a alguns amigos. Você precisa se socializar.
Eu me perguntei como ele tinha encontrado os amigos no meio daquela multidão, mas resolvi não fazer aquele questionamento.
Léo me apresentou a algumas pessoas e nós ficamos lá na praia até o amanhecer. Pela primeira vez na vida, ingeri bebida alcoolica e para a minha grande surpresa, gostei.
- Vai para casa? –perguntou o meu amigo.
- Vou, né? Por quê?
- Dorme lá em casa?
- Ah, não. Melhor eu ir pro meu quartinho. Tô cansado, preciso dormir um pouco.
- Ah, Caio... Não seja estraga prazeres. Vamos lá pra casa, eu prometo que deixo você dormir em paz!!!
Ele insistiu tanto que eu não tive como recusar. Pegamos um ônibus e fomos direto pra residência dele. Os pais do garoto já estavam dormindo e o local estava muito silenciosa. Quase não fizemos barulho pra não acordar ninguém.
- Que droga, amanhã tem que voltar a trabalhar – ele reclamou.
- É verdade – concordei.
- Paciência, né?
- Uhum.
Quase não conversamos naquela manhã. Quando ele trouxe o colchão e me jogou um travesseiro e um lençol, eu me aninhei e rapidamente peguei no sono. Um sono inquieto. Talvez por causa do álcool que eu tinha ingerido naquele 1º de janeiro.

Quando nós chegamos na empresa na segunda-feira, ficamos abismados com o número de pessoas que foram demitidas. A Samanta estava no meio e eu não posso negar que aquilo me deixou feliz, porque nós não nos dávamos bem de jeito nenhum.
- Quanto a vocês que ficaram – disse a Márcia –, hoje nós teremos novos funcionários entrando na equipe. Vou precisar muito da ajuda de vocês. Tudo bem?
Aquilo significava que nós seríamos responsáveis por transmitir o nosso conhecimento aos novos funcionários. Eu não achava ruim fazer aquilo, ao contrário de outras pessoas que odiavam quando chegavam pessoas novas no nosso grupo.
Aproximadamente quinze minutos depois, um grupinho de pessoas se aproximou e ficou aglomerado na parede. Eu passei meus olhos pela pequena multidão e me lembrei do meu primeiro dia naquela empresa. Eu sabia o que eles estavam sentindo.
A minha supervisora – que não era chata, mas também não era legal – colocou uma cadeira atrás de mim, mas eu não tive tempo de prestar muita atenção porque estava com um cliente na linha.
- Seu carrapato – ela falou. – Quando ele terminar, peça pra ele colocar pra você ouvir as ligações, tudo bem?
- Tudo bem, obrigado – era um rapaz. E a voz era linda...
Eu terminei o que estava fazendo e quando me virei, me deparei com um garoto estupidamente lindo. Lindo, muito lindo. Meus olhos grudaram naqueles olhos azuis e o meu coração bateu mais forte. Meu estômago ficou gelado e as minhas mãos começaram  suar frio. De repente, tudo a minha volta pareceu ficar imóvel. Eu já não ouvia mais o barulho dos atendentes, não ouvia mais a voz da minha supervisora, não ouvia sequer os meus pensamentos. Eu só tinha olhos pra ele. Como aquele garoto era lindo...

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