terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Capítulo 9

E

u fiquei tão perdido enquanto olhava pros olhos dele que nem percebi o que estava acontecendo ao meu redor.
- Acho que caiu uma ligação, não? – ele falou, sem tirar os olhos dos meus um segundo sequer.
- Hã?
- Acho que caiu uma ligação – o menino repetiu a frase.
Eu virei e olhei pra tela do computador.
- É, caiu sim –respondi, olhando de novo aqueles olhos lindos.
- E você não vai atender?
- Vou – falei depois de alguns segundos. – É claro que vou.

Meu coração estava batendo acelerado – pra variar – e eu não consegui me concentrar no atendimento.
- Só um momento – pedi ao cliente.
Eu arrumei a tela do meu computador de modo que ficasse cômodo pra ele acompanhar o meu registro. Coloquei a ligação no “mute” e me voltei àquele garoto lindo que eu ainda não sabia o nome.
- Você pode me emprestar o seu carrapato? – pedi com a mão estendida.
- Sim.
Ele me entregou e as nossas mãos se tocaram pela primeira vez. Senti um calor diferente percorrer cada centímetro do meu corpo...
Desconectei meu head set da base e inseri o carrapato, reconectando meu aparelho em seguida.
- Só mais um momento, por favor?
- Tudo bem – a cliente respondeu.
- Você está me ouvindo? – perguntei, quando deixei a ligação muda novamente.
- Estou sim.
- Aham.
Silêncio. Eu estava olhando tanto pros olhos dele que comecei a ficar constrangido e resolvi disfarçar o meu repentino interesse naquele garoto.

- Qualquer dúvida que você tiver, pode me interromper a hora que for, tá bom?
- Tudo bem – disse ele, com aquela voz deliciosamente bonita.
Depois de algumas ligações, ele me perguntou algumas coisas e eu comecei a explicar como funcionavam os procedimentos.
- No treinamento é muita informação, né? – tentei interagir.
- É sim, quase fiquei maluco.
- Eu também. Você é menor ou é efetivo?
- Menor e você?
- Também.
- Quando seu contrato acaba?
- Agosto e o seu?
- Só no ano que vem, acabei de completar 16 anos.
Que novinho!!!
- Ah, entendi.
E foi assim durante todo aquele dia. Sempre que o menino tinha alguma dúvida, não se fazia de rogado e me perguntava. Eu tentei não ficar olhando muito pra ele, mas foi impossível. Eu nunca tinha sentido nada igual antes, mas ainda não estava conseguindo entender porque ele me chamava tanto a atenção.
- Como estão as coisas por aí, Caio? – perguntou Márcia.
- Tudo em ordem, super.
- Tá com cliente?
- Não...
- Coloca uma pausa feedback e vem na minha mesa.
Meu estômago gelou.
- Já estou indo. Você sabe como insere pausa no sistema?
- Não – ele respondeu.
- É assim – eu expliquei rapidamente. – Não tem nenhum segredo.
- Ah, é facinho.
- É sim. Com licença, eu já volto.
Quando eu sentei ao lado da minha supervisora, pensei que ela ia me dar uma bronca, mas aconteceu justamente o contrário. Márcia me chamou pra me parabenizar por ter atingido a nota máxima em monitoria.
- Parabéns, você atingiu 100%. Estou muito orgulhosa de você, hein?
- Obrigado – abri um sorriso. – Pensei que ia me chamar pra dar bronca,
- Não, é claro que não. Você é um dos poucos que não me dá trabalho.
- Ah, que bom. Fico muito feliz.
- Eu também. Vamos lá, vou colocar a ligação pra você ouvir, tá bom?
- Uhum.
Eu achei a minha voz horrível no telefone. Parecia um menino de 12 anos de idade ao invés de um adolescente de 17.
- Então é isso. Parabéns. Pode voltar ao atendimento.
- Posso ir ao banheiro? Aproveitar que está de pausa...?
- Vai, mas não abusa, hein? – ela sorriu.
- Valeu, super. Você é demais!!!
Depois que tirei a água do joelho, voltei a minha PA e continuei com os meus atendimentos.
- Posso te fazer uma pergunta? – ele indagou com aquele lindo sotaque carioca.
- Claro.
- Que horas é a pausa?
- O horário é você que determina. Já quer ir?
- Já sim, estou com fome...
- Espera só eu atender essa daqui, tá bom?
- Uhum.
Eu tentei agilizar meu atendimento ao máximo para que ele não ficasse com fome. Coitadinho, não queria que ele sofresse por minha causa. Tão bonitinho...
- Pronto, já podemos ir.
Eu coloquei a pausa no sistema e me levantei.
- Já vai pra pausa? – Léo perguntou.
- Aham.
- Também vou.
Meu amigo estava ajudando uma senhora. Eu senti dó dele, porque só de olhar pra fisionomia dela, notei que ela ia ter muita dificuldade em aprender as coisas.
Nós fomos até a cantina e tomamos um lanche rápido. Quinze minutos não dava tempo pra muita coisa, só que eu já estava acostumado.

- Nossa, já acabou? – o novato reclamou.
- Pois é, passa bem rápido – respondi na lata. Eu precisava fazer amizade com aquele menino.
- Mas logo você acostuma – o atrevido do Leonardo se meteu.
- Vamos voltar? – me levantei.
- Vamos sim.
Como ele era novo na empresa, ainda não podia atender aos clientes, mas ele tomou a iniciativa de fazer os registros.
- Jà está abusando da boa vontade do seu colega, Caio? – minha supervisora brincou.
- Ah, pois é né, super. Preciso descansar um pouco os meus dedos.
- Espertinho.
- Vem cá, você não é do Rio não, né? – ele perguntou.
- Não. Sou paulista. Estou aqui há alguns meses.
- Percebi – o gato sorriu.
- Por causa do meu sotaque?
- É.
Dei risada.
- No começo era bem pior.
- Hum...
E quendo eu percebi, o expediente já havia acabado. Minha supervisora passou recolhendo os carrapatos e nós levantamos para ir embora.
- Muito obrigado pela sua ajuda, Caio – o rapaz agradeceu.
- De nada. Nossa, nem perguntei seu nome...
- Eu me chamo Bruno...

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